Em nossas leituras teológicas e nas conversas a respeito da interpretação bíblica sempre nos deparamos com termos como antropomorfismo que se trata de uma figura de linguagem utilizada pelos escritores da Bíblia em que características humanas são atribuídas a Deus e antropopatismo que se trata de uma figura de linguagem também utilizada pelos escritores sacros em que sentimentos humanos são atribuídos a Deus.

Muito embora sejam os homens que costumam atribuir características suas a Deus, mesmo que seja de forma figurada, existe uma característica divina que foi atribuída pelo criador ao homem desde o momento de sua criação, de forma definitiva e absoluta que é o teomorfismo.

Por teomorfismo podemos entender que se trata da forma divina com a qual o homem foi criado, conforme aparece na Bíblia pela expressão imagem e semelhança (Gn 1.26), ou seja, Deus (theos) fez o homem segundo à sua forma (morphé), portanto, este se trata de um ser teomórfico, pois carrega consigo a de Deus, ou conforme o texto bíblico, o homem é a imagem e semelhança do criador.

É interessante considerar a condição teomórfica do homem a partir dessas duas características que a Bíblia apresenta, a saber, imagem e semelhança, pois elas trazem as implicações mais precisas a respeito do propósito divino para o homem. Antes, porém é importante dizer que no texto original hebraico não existe conjunção entre estas duas palavras, mostrando que são termos equivalentes.

A palavra imagem é a tradução do termo hebraico tselem, que significa esculpir ou cortar, no sentido de fazer outro igual ao original, mostrando que o homem é uma imagem exata de Deus, uma representação ideal do criador e que por esta razão está apto a representá-lo diante do restante da criação.

A palavra semelhança é a tradução do termo hebraico demuth que significa ser igual, de modo que o fato do homem ser a imagem de Deus implica ser também semelhante a ele, portanto é uma representação fidedigna de Deus nos aspectos que o criador comunicou à sua criatura.

O teomorfismo é, deste modo, a forma que Deus comunicou de si ao homem através da sua imagem e semelhança, para que este pudesse representá-lo adequadamente e governasse o restante de sua criação como um verdadeiro mordomo que zela pelo que lhe foi confiado.

Este controle pelo qual o homem pode representar a Deus fidedignamente é mais bem visto em alguns aspectos da experiencia diária pelos quais a condição teomórfica se torna mais evidente, pois ao agir sob a obediência ao criador, se cumpre adequadamente a tarefa confiada.

O primeiro desses aspectos é o domínio confiado aos homens pelo próprio Deus (Gn 1.26) quando deu autoridade suprema a este e de forma definitiva, para que o homem pudesse estabelecer uma sociedade, desenvolver uma cultura e cuidar da criação de forma que o nome de Deus pudesse ser honrado através desse domínio.

Um segundo aspecto a ser considerado é o fato de o homem ter sido criado homem e mulher, os quais através do companheirismo e da complementariedade, refletem a condição teomórfica que carregam consigo, mostrando assim que Deus não existe como um ser solitário, mas existe como um ser em comunhão com suas criaturas e consigo mesmo através da trindade.

Isto não quer dizer que o homem e a mulher são representantes físicos de Deus, mas que ao se tornarem uma só carne representam a comunhão de Deus consigo mesmo e com seus filhos, como deixa claro o apóstolo Paulo ao usar o casamento do homem e a mulher como uma figura do amor de Cristo por sua igreja (Ef 5.25).

O terceiro aspecto é a responsabilidade que Deus deu ao homem ao confiar o mandato cultural a este (Gn 1.28), revelando assim que a condição teomórfica se expressa pela capacidade humana de exercer suas funções à semelhança de Deus quando de forma planejada criou tudo que existe.

O teomorfismo é, portanto, uma condição comum a todos os filhos de Deus a qual é intrínseca à natureza humana como um privilégio único que Deus concedeu ao único ser criado à sua imagem e semelhança.

Otoniel Oliveira
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