Comentário

Para entendermos esse último ato, precisamos primeiro falar sobre a encarnação, ou seja, o processo de humilhação de Cristo. Pois, Ele sendo Deus e consubstancial em glória, majestade, soberania e poder, teve que rebaixar-se (humilhar-se) tornando-se como um de nós (Fl 2.6-11). Certamente, sua encarnação não mudou seus atributos e natureza divina[1], mas de “certo modo” sua posição.

A deliberada abdicação de uma glória e conforto para sofrer todas as limitações e mazelas da humanidade (Is 52:13-53:12), sem dúvida é a mais alta prova de obediência ao Pai, amor e sacrifício substitutivo por homens completamente perdidos. Pois, é como se o homem fosse algo extremamente quebrado e levado para um reparo que exige um preço mais alto devido a um dano mais grave, logo, pelo alto preço (1Co 6:20) que foi pago por Cristo em sua humilhação e morte na cruz, deduzimos o quão deplorável e grave é o estado do homem sem Deus.

Entendendo a dimensão da humilhação de Cristo, vejamos que em seus momentos finais, Ele faz questão de cumprir na íntegra as Escrituras (v 28) demonstrando sede e recebendo como predito em Salmos (69:21) uma esponja embebida em vinagre para ingerir (v 29). Há afirmações de que esse vinagre era uma espécie de vinho azedo e barato que os soldados romanos estavam acostumados a beber durante a crucificação[2].

Outra terrível hipótese reforçada pelo uso da esponja é que ela era usada em banheiros públicos romanos para o asseio das pessoas e esterilização na vasilha cheia de vinagre após o uso e compartilhamento por repetidas vezes[3].

No momento em que a esponja é posta à boca de Cristo (v 30) Ele toma ou “prova” o vinagre, destacando a intenção do cumprimento cabal da profecia e também o escárnio, zombaria e humilhação aplicados pelos homens[4] (Lc 23.36-37).

De qualquer modo o vinagre oferecido a Cristo era impróprio para ser consumido e denota por suas propriedades e maneira como foi dado uma atitude de extrema desumanidade. Após mais essa última prova da perversidade e crueldade humana, finalmente tudo estava consumado e então Ele voluntariamente entrega seu Espírito.

Variantes Textuais

V28 – ΐνα τελειωθή ή γραφή (para se cumprir a Escritura) – Um detalhe interessante sobre essa frase é que sua conexão com versículos anteriores pode incluir o que Jesus disse e fez literalmente como cumprimento das Escrituras conforme OMANSON:

As palavras ΐνα τελειωθή ή γραφή (para se cumprir a Escritura) podem ser conectadas com o que segue, ou seja, o que Jesus diz é o cumprimento da Escritura. A maioria das traduções modernas reflete esta segmentação. Veja, por exemplo, a BN: “Depois disto, como Jesus sabia que a sua obra agora tinha chegado ao fim, exclamou para se cumprir o que diz a Sagrada Escritura: ‘Tenho sede’”. O texto do AT que se tem em vista é, mui provavelmente, SI 69.21 (“… na minha sede me deram a beber vinagre”). Caso, porém, as palavras iva τελειωθή ή γραφή forem ligadas ao que vem antes, o sentido passa a ser: “Depois disso, como Jesus sabia que tudo estava completado para cumprir a Escritura, disse: Tenho sede”’. Ou seja, quando Jesus confiou a sua mãe ao discípulo amado, nos vs. 26-27, isso fazia parte do cumprimento da Escritura.[5]

V29 – ύσσώπψ (hissopo) – A preferência da variante ύσσω (lança) encontrada em alguns manuscritos no lugar de “hissopo” é explicada, OMANSON diz:

Um manuscrito do século onze (476*) traz ύσσω (uma lança; confira perticae ,um poste ou uma haste comprida, que é um texto que aparece em vários manuscritos da Antiga Latina). Essa leitura faz mais sentido dentro desse contexto do que ύσσώπψ, mas parece ter surgido acidentalmente, quando yccoonepieentec foi copiado em lugar de yccconounepieentec. Por influência de Mt 27.34, vários testemunhos acrescentam μετά χολής καί ύσσώπου (com fel e hissopo). Um testem unho da Antiga Latina omite “hissopo” e traz simplesmente “misturado com fel”. O hissopo é um pequeno arbusto folhudo que cresce em lugares secos, e as suas folhas cheias de penugem podem absorver líquidos. Não se tem a identificação exata dessa planta, e a palavra grega pode se referir a várias plantas diferentes. Uma vez que o tronco do hissopo não parece suficientemente rijo para poder suportar uma esponja molhada, algumas traduções aceitaram a leitura ύσσω (“uma lança”, NEB, Moffatt e Goodspeed; a NBJ registra essa possibilidade em nota de rodapé: “num dardo”).[6]

Gênero Literário

Evangelhos – Esse gênero literário bíblico e exclusivo da literatura universal, destaca-se por sua diversidade de sub-gêneros presentes e integrados. Temos nos evangelhos: poesia (Lc 1:46-55), parábolas (Mt 13.1-58), narrativa e biografia, mas sua definição geral vem do seu objetivo central de exposição: Cristo, FEE e STUART falam sobre essa definição:

Nossos Evangelhos realmente contêm coletâneas de ditos, mas estas sempre estão entretecidas, como parte integrante, numa narrativa histórica da vida e do ministério de Jesus. Logo, não são livros de Jesus, mas livros acerca de Jesus, que ao mesmo tempo contêm uma porção considerável de Seu ensino.[7]

Teologia

Cristologia e Soteriologia – São apresentados nesse texto aspectos da posição e objetivo de Cristo dentro plano de redenção da humanidade. Em relação a posição (de certo modo), temos a renúncia de um ambiente de glória (não do poder e divindade) e encarnação como parte do processo de humilhação que chegou até a cruz. O objetivo consiste no cumprimento cabal das Escrituras para viabilidade da redenção (salvação).


[1] DIAS LOPES, Hernandes. A Humilhação e Exaltação de Cristo. Campinas: [s.n.], […]. Disponível em: < https://hernandesdiaslopes.com.br/a-humilhacao-e-a-exaltacao-de-cristo/>. Acesso em: 16 dez. 2020

[2] STERGIOU, Costas. Theword: Bible Software. Version 5.0.0.1450. [s.l.: s.n.], 2015. 1 CD-ROM.

[3] Banheiro Publico (Byzantine Latrine). Rodrigo Silva. [S. l.: s. n.], 2019. 1 vídeo (9:40 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SxhdywQrp10. Acesso em: 16 dezembro 2020.

[4] KITTEL, Gerhard; RIEDRICH, Gerhard. Dicionário Teológico do Novo Testamento – vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. 2 v. p. 45

[5] OMANSON, Roger L. Variantes Textuais do Novo Testamento. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010. p. 210,211.

[6] Ibidem., 2010. p. 211.

[7] FEE, Gordon D; Stuart, Douglas. Entendes o que Lês?: Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e da hermenêutica. São Paulo: São Paulo, 2003. p. 99.

Fabricio Rodrigues

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