Levando-se em consideração certos aspectos da filosofia pós-moderna, facilmente encontraríamos bases para argumentar que a gênese do Pós-Modernismo pode ser verificada nos escritos filosóficos de Friedrich Nietzsche (1844-1900), pois foi ele quem fez as mais contundentes críticas à cultura, à política, às artes e à religião estabelecidos na Era Moderna.

Filho de pastor luterano, Nietzsche chamou à atenção da sociedade de seu tempo ao afirmar que “Deus estava morto”. Na verdade, uma das principais intenções do filósofo era ressaltar que a civilização ocidental de seu tempo já não mais necessitava das metanarrativas, das tradições, dos relatos e dos valores cristãos como ela necessitava no passado. Em 1889, Nietzsche sofreu um colapso mental e nada mais escreveu em seus últimos onze anos de vida. Entretanto, foi opositor visceral à moral e valores cristãos. Afirmou que a moral e os valores do homem ocidental derivam de crenças religiosas, as quais o homem moderno não poderia mais sustentar, sendo, portanto, necessário reavaliar os valores judaico-cristãos. Fez severas e impiedosas críticas aos ensinos de Jesus, considerando-o um moralista que defendia os fracos em detrimento dos fortes; a justiça, ao invés da força, e o triunfo final dos mansos em lugar dos revoltados. Para o filósofo da descrença, o que permitiu o progresso da civilização e o desenvolvimento da cultura foi a constante eliminação dos fracos pelos fortes, dos incompetentes pelos competentes e dos estúpidos pelos astutos. Não foi sem razão que os escritos de Nietzsche alimentaram o ódio racial e religioso e as propagandas fascistas de Hitler e Mussolini. Embora o filósofo não seja considerado antissemita, no entanto, até mesmo os seus defensores não podem negar que os nazistas associaram o super-homem nietzschiano ao conceito purista ariano. O fundador do fascismo, Mussolini, por exemplo, lia copiosamente os escritos de Nietzsche, razão pela qual, no histórico encontro de Hitler com Mussolini, em 1939, este recebeu do ditador alemão uma coleção completa das obras de Nietzsche.

A influência de Nietzsche não se limitou apenas à filosofia e à política, mas abrangeu também as artes.

Eis algumas ideias nietzschianas defendidas pela Pós-Modernidade:

  • O homem deve viver sua vida ao máximo, e conseguir tudo o que puder neste mundo;
  • A moral e valores cristãos são indefensáveis na atual geração;
  • Não se pode crer e nem valorizar os valores cristãos;
  • Aceitar os valores cristãos é a maior das decadências, uma negação de tudo o que produziu a cultura e a civilização;
  • Se Deus não existe e, também, nenhum outro mundo além deste, então a moral, a ética e os valores não podem ser o que se chama de transcendentais. Portanto, os homens são responsáveis para criaremos seus próprios valores e escolherem viver aqueles que julgarem ser os mais convenientes;
  • Sócrates e Jesus não eram mais do que dois moralistas, cujos ensinos devem ser rejeitados;
  • Não se pode fundamentar uma sociedade em valores que ela repudia.

O que é a Pós-Modernidade, então? Pós-Modernidade, que também pode ser denominada “modernidade tardia” ou “hipermodernidade”, é o movimento que descreve as mudanças ocorridas do mundo, nas mais diversas áreas da sociedade que, a partir queda do muro de Berlim, ocorrida em 9 de novembro de 1989, passaram a afetar as sociedades desenvolvidas. Surgiu de modo mais claro já na década de 50, apresentando sua influência na arquitetura e computação; passou a adquirir corpo nos anos 60, com o surgimento da arte “pop”; fortaleceu-se ao entrar na filosofia durante os anos 70. Sendo percebida depois, a partir da década de 80, a Pós-Modernidade evidenciou-se no cinema, na moda e na música; estabelecendo-se definitivamente, a partir dos anos 90, na tecnociência (tecnologia + ciência), chegando até os dias atuais, apresentando-nos os alimentos processados, os fornos micro-ondas, os “lap-tops”, os “palms”, os “pen drives”, os celulares, os “smartphones”, as câmeras digitais, a HDTV, a internet, os “iPads”, as comunidades Facebook, Twitter, Instagram,  Skype, Whatsapp, os “blogs” etc. Enfim, uma série de conquistas e inovações, as quais uma pessoa normal não consegue acompanhar.

Em termos simples penso que: “a Pré-Modernidade era governada por Deus; a Modernidade, pelo homem; e a Pós-Modernidade é governada por todo mundo, o que também pode significar que ela não é governada ninguém.”

Uma das mais importantes questões da igreja atualmente é exatamente como pensar a fé e a religião em relação quadro social existente na Pós-Modernidade.  Já não existem mais fronteiras em um mundo globalizado. Inseridos em tal contexto, devemos questionar quais são os desafios decorrentes desta situação.

Existem muitos preconceitos em relação à Pós-Modernidade. Alguns pensam que ela seja portadora somente de características positivas associando-a ao desejo de progresso, não importando o preço que tenham que pagar! Outros, em contrapartida, pensam que ela represente a pior fase do desenvolvimento humano: todos os males e sofrimentos na humanidade são os resultados de uma vida dominada pela técnica e pelo dinheiro em detrimento de princípios e critérios importantes, tais como: justiça, fraternidade, ética, compromisso e amor, os quais já não são mais levados em consideração.

A Pós-Modernidade apresenta obviamente os seus aspectos positivos associados ao progresso, meios de comunicação, sociabilidade, ciência, desenvolvimento etc., mas apresenta também os seus aspectos negativos associados à pobreza, falta de oportunidade para muitos povos, nações e indivíduos etc. É necessário, pois, fazermos a seguinte pergunta: como pensar a fé, a religião, a igreja e a teologia nesse tal contexto?

Nesses primeiros anos do novo milênio, muitos cristãos afirmaram que a fé, a

teologia e a religião perderiam a sua importância. Fé, é sim algo extremamente importante na atualidade. Contudo, quando se fala de fé, não se está pensando no termo fé segundo o entendimento tradicional. Muitos desafios precisam ser considerados quando se fala de fé: ecumenismo, diferentes concepções de Deus, diferentes conceitos religiosos, a influência do dinheiro e dos meios de comunicação social nas atividades religiosas e daí por diante. Vivemos num mundo impregnado de individualismo, pragmatismo e materialismo: tal característica é o resultado da pós-modernidade. Somente através do plano proposto pelo Senhor Jesus Cristo pode-se devolver ao mundo a possibilidade de algo poder propiciar paz e alegria.

Mas, com razão, alguns perguntam: a Pós-Modernidade pode afetar a teologia e a prática eclesiástica? É possível isso acontecer? A resposta é afirmativa. E indo um pouco mais adiante, podemos afirmar a importância de entendermos como alguns elementos filosóficos da Pós-Modernidade podem afetar a interpretação e a prática dos evangélicos.

Os evangélicos têm tradicionalmente interpretado as Escrituras

partindo de alguns pressupostos:

  1. a) Em primeiro lugar, as Escrituras são divinas, em sua origem, infalíveis e inerrantes no que afirmam e seguras e certas no seu ensino;
  2. b) Em segundo lugar, a Bíblia é a revelação da verdade. Só existe um caminho certo para se ter acesso a Deus, o que se encontra revelado na Bíblia;
  3. c) Em terceiro lugar, tudo o que é necessário à salvação e à vida cristã estão claramente revelados nas Escrituras;
  4. d) Em quarto lugar, a salvação é propiciada somente por Jesus Cristo, a qual nos é revelada nos Evangelhos;
  5. e) Em quinto lugar, esta salvação está claramente exposta na Bíblia Sagrada é oferecida a todos.

Em contraste a esse posicionamento: “cristão evangélico”, existem alguns conceitos da Pós-Modernidade que podem ameaçar a interpretação conservadora das Escrituras, pois vão na contramão das Escrituras.  Por isso, é necessário que os teólogos, os pensadores cristãos, os líderes e a igreja, de um modo geral, conheçam quais são esses perigos, os quais estão atrelados a conceitos que, não raras vezes, são adotados por alguns cristãos sem se darem conta do grande perigo que correm e do grande mal que eles proporcionam.

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12:2

Sandro Pereira
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