Com o propósito divino e seu reflexo já definidos por práticas e virtudes na concepção da igreja, são concedidos dons ou capacidades do ensino para fundação, expansão e manutenção da doutrina de Cristo. Veremos agora os aspectos de concessão dessas capacidades em relação à obra redentora de Cristo e às verdades sobre cada uma das três categorias de dons do ensino para unidade e vida da igreja.

A CONCESSÃO DOS DONS PARA EDIFICAÇÃO DA UNIDADE

Apesar de não ser o mesmo termo χαρισμα “charisma” usado para dons em outras partes da Bíblia, mas indubitavelmente se referindo a eles pelo contexto e interseção de dons listados em Efésios 4.11; I Coríntios 12.8-10; I Coríntios 12.28-30; Romanos 12.6-8; I Pedro 4.11. Entendamos uma dinâmica entre os termos sinônimos para expressar o desdobramento da graça dada por Cristo em duas esferas: primeiramente no singular δωρεας “dorea” (v.7) que em seu significado original, além de gratuidade, denota um presente dado por um soberano. Esse vocábulo tem servido como expressão geral da salvação de todos os que creem em Cristo ou o “dom da salvação”. Em seguida, o termo no plural δοματα “domata” (v.8) que tem sentido de “dar” ou “algo dado”, como uma dose médica, sendo visto como expressão de capacidades ou “dons” também dados por Cristo para o serviço e edificação da unidade.

Stott elucida:

[…] é muito importante entender a diferença entre os termos. A “graça salvadora”, a graça que salva os pecadores, é dada para todos quantos crêem;15 mas a que poderia ser chamada de “a graça para o serviço”, a graça que equipa o povo de Deus para servir, é dada em diferentes níveis segundo a proporção do dom de Cristo (v. 7).[1]

Essa dinâmica é elucidada no texto pela inclusão de um recurso muito utilizado para argumentação textual bíblica, uma citação de Salmos 68.18 em que temos Cristo não só figurado, mas de fato como um conquistador, ascendendo triunfantemente às alturas e em seguida distribuindo os despojos da conquista aos homens (v.8). E como “O Salmo 68 é um apelo a Deus para vir em socorro do seu povo para defendê-lo novamente como no passado”[2]. Em outras palavras, podemos perceber uma inegável ligação entre um aspecto militar e protetor desempenhado por Deus em Salmos 68, e a mesma característica sendo aplicada e cumprida em Cristo na conquista e concessão da salvação (dom), triunfo sobre a morte e distribuição dos despojos (dons) aos homens.

Hendriksen afirma:

O costume prevalecente de que o vencedor dividia o despojo é também reconhecido na Escritura. Assim, Abraão, ao derrotar Quedorlaomer e seus aliados, tomou despojo com a intenção de distribuí-lo: a Ló, o que ele perdera; a Melquisedeque, o dízimo; a Aner, Escol e Manre, suas partes (Gn 14). Não recebeu também Davi o despojo a fim de reparti-lo (1Sm 30.26-31)? Os inimigos de Israel também tinham o hábito de dividir o despojo, primeiro tomando-o, em seguida distribuindo-o (Jz 5.30).[3]

O triunfo e ascensão de Cristo são também justificados por sua anterior descida até as “regiões inferiores da terra” ou a “terra” e podemos considerar essa expressão como o ato da encarnação de Cristo (v.9,10). É além de uma defesa da origem e natureza divina de Cristo, uma afirmação categórica do alto preço que Ele pagou para que a igreja fosse possível. Pois o mesmo Cristo que subiu aos céus e trinfou sobre a morte e pecado é o mesmo Cristo que antes desceu a terra sofrendo as mazelas e limitações do mundo e humanidade por amor à igreja.

Conforme Stott:

Por causa do contexto imediato, que diz respeito aos dons que Cristo deu à igreja após a ascensão, G. B. Caird faz outra sugestão: que sua “descida” fosse sua “volta no Pentecoste para dar o Espírito à igreja”.20 Mas, por mais engenhosa que seja esta idéia, a interpretação natural das palavras sugere que sua descida antecedeu sua subida ao invés de segui-la. Cristãos primitivos entendiam que se tratava de uma referência à descida de Cristo até o hades.21 Associavam a expressão com 1 Pedro 3:19 (“ foi e pregou aos espíritos em prisão”), que interpretavam no sentido de ele despojar ou “ferir” o inferno. Mas, seja qual for o significado do texto em 1 Pedro, não há nenhuma referência óbvia ao hades ou inferno em Efésios 4:9. Calvino (seguido por comentaristas da Reforma tais como Charles Hodge) argumentou a partir da expressão “subiu ao céu” em João 3:13 que “às regiões inferiores da terra” é um genitivo de aposição ou definição, que simplesmente significa “a terra”, e que a descida de Cristo refere-se à sua encarnação. J. B. Phillips em CIN entende a expressão da mesma forma, dizendo que Cristo desceu “da altura do Céu ao abismo deste mundo”. Talvez, no entanto, a referência seja ainda mais geral, ou seja, que Cristo desceu para as profundezas da humilhação quando veio à terra. Ou, possivelmente, a alusão seja à cruz, e “à experiência das profundezas ulteriores, as próprias agonias do inferno”22 que Cristo suportou ali.[4]

Esclarecidos quanto à dinâmica dos termos relativos aos dons, justificativa da conquista da salvação e procedência divina de Cristo percebemos pelo contexto que há uma relação de níveis, sequência ou consequência que nos leva a uma assertiva conclusão: o ato da salvação devidamente conquistada e provida por Cristo inclui inevitavelmente os dons para desenvolvê-la em unidade. Sendo assim, cada cristão verdadeiro tem por essência, além de uma busca pelas virtudes da unidade, ferramentas ou capacidades para desenvolver em prol dessa unidade.

DONS DO ENSINO NO FUNDAMENTO DA IGREJA

Já constatamos que a Bíblia, em seu aspecto altamente didático, faz uma excelente comparação figurativa da igreja com um corpo (Cl 1.18, 1Co 12.12-27 em que os crentes são os membros e Cristo é a cabeça), um edifício (1Pe 2.1-10 em que os crentes são as pedras e Cristo é a base fundamental) e, outras vezes, com um aprisco (Jo 10.1-18 no qual os crentes são as ovelhas e Cristo é o pastor). Uma vez que é inevitável a concessão de dons para edificação da unidade do corpo de Cristo e tomando primeiramente o exemplo do edifício que logicamente necessita de uma base, falaremos acerca dos dons do ensino que promovem a base doutrinária para toda edificação (v.11). Cristo é a pedra fundamental da igreja (Efésios 2.20; Mateus 16.18; Atos 4.11; 1 Pedro 2.6,7), mas ele mesmo concedeu os que seriam responsáveis por lançá-lo como fundamento por meio da doutrina. A ideia é aparentemente presunçosa, entretanto, Jesus lançou a si mesmo como fundamento através da concessão dos apóstolos e profetas. A doutrina de Cristo é sem dúvida a base de ensino sob a qual os apóstolos e profetas se fundamentaram para dar continuidade à missão de edificação da igreja prometida por Ele mesmo em Mateus 16.18 e sem uma base doutrinária sólida a igreja não perduraria até os dias atuais. O fundamento perfeito, uma vez lançado, não necessita de reparos ou camadas adicionais. Logo, a missão estrita dos apóstolos e profetas foi completamente cumprida pela concepção das Escrituras Sagradas.

Não há mais necessidade de recorrermos às atuações específicas ou títulos de prerrogativa dos apóstolos e profetas na tentativa de dar vida ou continuidade a algo que já é suficiente e vivo como a Escrituras Sagradas. Mas os reflexos e resultados atemporais desses dons ainda permanecem a ponto de os respaldarem como ainda ativos de forma indireta e geral através dos ensinos que compõem a Bíblia. Vejamos num sentido contextualizado e prático como podemos conceber a importância e atualidade desses dons do ensino

Apóstolos ἀποστόλους – delegados, mensageiros ou enviados com ordens. Assim como os evangelistas tinham um trabalho itinerante de pregação do evangelho e plantação de igrejas, mas eram prioritariamente lançadores da doutrina básica de Cristo. Pelo trabalho deles na aplicação do evangelho, desde à igreja primitiva até hoje, temos acesso às Escrituras Sagradas e às doutrinas que nos conduzem ao conhecimento de Deus para salvação e desenvolvimento da vida cristã. Quantas vezes iniciamos uma leitura bíblica ou exposição com as palavras: “O apóstolo nos diz”? Portanto, apóstolos, hoje, são somente os que nos dizem pela revelação escrita como deve ser nossa conduta e fé diante de Deus para o desenvolvimento da igreja e vida cristã. Logo, nesse sentido, podemos dizer que não temos mais os apóstolos, mas sim o apostolado restrito às Escrituras Sagradas.

Segundo Hendriksen:

apóstolos, no sentido restrito do termo, são os doze e Paulo. Eles são as testemunhas titulares da ressurreição de Cristo, revestidos de autoridade eclesiástica universal e vitalícia sobre a vida e doutrina, porém introduzidos aqui, como já indicado, com o fim de enfatizar o serviço que prestam.[5]

Profetas προφήτας – umas das principais características de um profeta do Antigo ou Novo Testamento era a recepção verbal ou especial da revelação de Deus e anunciação da sua vontade considerando a leitura do seu tempo, contexto e mundo. Eles previam acontecimentos algumas vezes a partir dessas leituras e, outras vezes, por uma visão direta e específica concedida por Deus.

Segundo Foukes:

As vezes podiam prever o futuro, como em Atos 11:28 e 21:9, 11, mas tal como os profetas do Antigo Testamento, sua grande obra era proclamar a palavra de Deus. Isto podia acontecer quando mostravam os pecados dos homens com poder convencedor (1 Co 14:24), ou quando fortaleciam a igreja pela palavra de exortação.[6]

A antiga profecia como revelação direta e especial de Deus que resultou na inspirada construção das Escrituras Sagradas não existe mais, no entanto, hoje não é substancialmente diferente. A única diferença é que a fonte é ou deveria ser a revelação escrita, desse modo a exposição fiel das Escrituras Sagradas para exortação e edificação da igreja pode ser considerada nos limites desse aspecto como profecia, pois a vontade de Deus está revelada nelas. Aos atuais expositores, entretanto, é sensata a restrição do uso do termo “profetas” no sentido de função, pois a revelação escrita, suficiente e viva das Escrituras Sagradas já desempenha o papel deles.

Stott afirma:

Como o fundamento sobre o qual a igreja está sendo alicerçada, os profetas não têm sucessores, assim como os apóstolos não os têm, pois o fundamento foi lançado e acabado há muitos séculos, e hoje não podemos mexer com ele. Mas, assim como fez no caso dos apóstolos e no caso dos profetas, Paulo inicialmente estabeleceu a unicidade dos primeiros mestres da igreja, e temos então que perguntar se há agora um dom subsidiário de algum tipo. Parece certo responder que “sim”, mas, ao confessá-lo, não sabemos com certeza o que é! Alguns entendem que se trata de um dom especial de exposição bíblica, um grau incomum de entendimento da Palavra de Deus, de modo que, mediante o ministério do Espírito Santo, os profetas modernos ouvem e recebem a Palavra de Deus, não como uma nova revelação, mas, sim, como uma compreensão renovada da antiga revelação. Outros vêem o dom como sendo uma sensibilidade para entender o mundo contemporâneo, uma capacidade para ler os sinais dos tempos, juntamente com uma denúncia indignada dos pecados sociais contemporâneos e uma aplicação perceptiva das Escrituras a eles. Aqueles que sustentam este ponto de vista chamam a atenção aos oráculos sócio-políticos dos profetas do Antigo Testamento. Um terceiro ponto de vista concentra-se no efeito que o ministério dos profetas do Novo Testamento teve sobre seus ouvintes, trazendo aos descrentes uma convicção dos seus pecados, e aos crentes, edificação, exortação e consolação,29 Nestes três pontos de vista, o dom profético é detectado no manuseio da Palavra de Deus, pois não se pode considerar os profetas de Deus à parte da Palavra de Deus.[7]

Hoje temos a Bíblia como ponto de partida para vida, fé e qualquer ação que envolva a pregação do evangelho, a anunciação da vontade de Deus para o homem. Sendo assim, todos os ensinos doutrinários bíblicos escritos pelos apóstolos e profetas foram e ainda são a base viva da igreja.

DONS DO ENSINO NA EDIFICAÇÃO E EXPANSÃO DA IGREJA

Considerando o fundamento perfeito já lançado para edificação da igreja e seu desenvolvimento linear inerente ao desenvolvimento dos dons, falaremos sobre o dom do ensino que atua diretamente na fase expansão da obra de edificação da igreja (v.11). Os evangelistas εὐαγγελιστάς “mensageiros não apóstolos” da igreja primitiva, atuavam no auxílio direto aos apóstolos em missões especiais de proclamação da palavra e, além de serem hábeis no ensino do plano redentor de Cristo, geralmente pregavam de forma itinerante em áreas não alcançadas pelo evangelho.

Patzia afirma:

Evangelistas: A definição mais óbvia de evangelista é “pregador do evangelho” (2 Timóteo 4:2), “prega a palavra”). Na igreja primitiva havia pregadores itinerantes que andavam por áreas ainda não-evangelizadas a fim de proclamar o evangelho. Todavia, o evangelista também poderia ter o dom necessário à função de explicar o evangelho às pessoas, além de levar os pagãos a aceitá-lo como Palavra de Deus (cf. 2 Timóteo 4:5: “Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre bem o teu ministério”).[8]

Podemos deduzir a partir disso, que o trabalho dos evangelistas tem como ponto de partida o fundamento lançado pelos apóstolos e profetas desde à igreja primitiva, mas ao contrário deles os evangelistas ainda continuam o seu trabalho. Pois o auxílio em missões especiais de proclamação do evangelho (agora a partir das Escrituras Sagradas) ainda é exercido, dando-nos liberdade não só para considerarmos a continuidade desse dom, mas também (e especificamente neste caso) para utilizarmos o termo “evangelistas” nos dias atuais. Realmente não temos muitas informações sobre os evangelistas do NT e existem afirmativas de que eles fazem parte da categoria extraordinária dos dons não sendo os mesmos evangelistas em termos modernos.

De acordo com Jones:

Se alguém ficar surpreso por eu colocar o evangelista e o seu ofício na mesma categoria extraordinária e temporária dos apóstolos e dos profetas, a probabilidade é que ele está pensando num evangelista nos termos do uso moderno da palavra. Este é algo essencialmente diferente do uso no Novo Testamento onde não temos muita informação acerca dos evangelistas.[9]

É relativamente correta essa afirmativa, pois se tratava da expansão inicial da igreja e devido às particularidades desse momento e flexibilidade do ofício é difícil definir suas diretrizes. Pois Timóteo além de evangelista (2Timóteo 4.5) era um jovem pastor e representante apostólico, Filipe além de diácono (Atos 6.1-7) era um evangelista (Atos 21.8; 8.26-40).

Hendriksen explica:

Igualmente, devemos considerar como certo que Timóteo serviu em dois ministérios diferentes: a. como representante apostólico e b. como evangelista? Porventura não é mais consistente, com os dados bíblicos extraídos do relato de Atos 6, pensar que os únicos homens aptos para serem eleitos diáconos deviam ser “cheios do Espírito e de sabedoria”, “cheios de fé”, e que, por conseguinte, Filipe era um diácono-evangelista? Estaremos fazendo plena justiça ao ofício de diácono se passarmos por alto este ponto de vista? E porventura o caso de Timóteo também não indica a flexibilidade de seu ofício? Se Timóteo, como evangelista ou missionário itinerante, pode servir melhor aos interesses da igreja sendo representante de Paulo, por que não há de funcionar como tal?[10]

No entanto, os evangelistas não foram vetores fundamentais da revelação divina como os apóstolos e profetas (Efésios 2.20, 3.5; 2Pedro 3.2; Apocalipse 18.20), e se limitavam apenas à proclamação itinerante do que os apóstolos e profetas já ensinavam. Estamos tratando aqui, é claro, de ofícios prioritários e secundários, mas a versatilidade dos evangelistas nos dá liberdade para considerarmos a atuação desse dom até os tempos atuais.

Todo cristão autêntico, independente de posição, cargos ou ofícios eclesiásticos, deve ser por natureza uma testemunha do evangelho ou de modo geral um evangelista onde estiver (Atos 1.8). Assim temos o aspecto flexível desse dom, mas sem dúvidas existem aqueles que dispõem de uma habilidade especial concedida por Deus para comunicar o evangelho incluindo estratégias e meios inusitados, porém bíblicos de pregar a Palavra de Deus, além de renúncia de suas raízes e habitação, com o objetivo de expansão territorial do evangelho e quantitativa da igreja. Nesse sentido, ainda hoje temos evangelistas contribuindo com a edificação e avanço da igreja por meio da pregação do evangelho em áreas e setores não alcançados, gerando a inclusão de novos membros ao corpo, novas pedras à edificação ou novas ovelhas ao aprisco.

Stott afirma:

Depois dos apóstolos e profetas, Paulo menciona os evangelistas. Este substantivo ocorre apenas três vezes no Novo Testamento (aqui; em Atos 21:8 a respeito de Filipe, e em 2 Timóteo 4:5 a respeito do próprio Timóteo), embora, é evidente, o verbo “evangelizar” seja frequentemente empregado para descrever a divulgação do evangelho. Visto que todos os cristãos estão obrigados a testificar de Cristo e de suas boas novas, o dom de “evangelista” (conferido apenas a alguns) deve ser algo diferente. Talvez se refira ao dom da pregação evangelística, ou de fazer o evangelho especialmente claro e relevante aos descrentes, ou de ajudar as pessoas medrosas a dar o passo da entrega a Cristo, ou do testemunho pessoal eficiente. Provavelmente o dom de evangelista tome todas estas formas diferentes, e outras mais. Deve ter algum relacionamento com ministério evangelístico, seja na evangelização em massa, na evangelização pessoal, na evangelização pela literatura, na evangelização por filmes, na evangelização pelo rádio e pela televisão, na evangelização pela música, ou pelo emprego de algum outro meio de comunicação. Há hoje grande necessidade de evangelistas que tenham esse dom, e que sejam pioneiros em novas maneiras de exercê-lo e desenvolvê-lo, penetrando nos vastos segmentos da sociedade ainda não atingidos e os conquistando para Cristo.[11]

DONS DO ENSINO NO CUIDADO E CONSOLIDAÇÃO DA IGREJA

Com a base já lançada e o trabalho de expansão e formação do corpo em andamento, ainda há uma necessidade de conservação e cuidado a ser aplicado e para isso são concedidos dois dons que formam uma única função (v.11), os pastores e mestres,  que “em outros trechos, são chamados de anciãos e bispos, que zelavam pelos convertidos e pelo seu crescimento”[12]. São dons do ensino que objetivam a manutenção e conservação do corpo e estrutura do edifício expandido pelos evangelistas. No texto original, os pastores e mestres são termos ligados pela conjunção coordenativa καὶ “e”, estritamente semelhantes em aspectos, reforçando o entendimento que se trata de uma só função, pois “Uma vez que é feita uma citação em conjunto na expressão outros para pastores e mestres, é possível que estes sejam dois nomes para o mesmo ministério”[13]. Para melhor compreensão dessa atribuição composta, vejamos os detalhes de cada aspecto a seguir.

Pastores ποιμένας – o termo em seu sentido literal é vaqueiro, aquele cujo cuidado e controle outros se submeteram e cujos preceitos eles seguem; oficial que preside; gerente; diretor de qualquer assembleia. Era na igreja primitiva como um ministro local que segundo as elucidações figurativas da Bíblia se compara a um pastor de ovelhas. Essa ilustração tem como referencial supremo o próprio Cristo chamado de “O Sumo Pastor” e na dinâmica figurativa de um aprisco o pastor local é o cuidador do rebanho do qual Cristo é o Pastor Supremo e proprietário. No caso da igreja como corpo, o pastor é o responsável pela preservação da integridade dos membros do corpo do qual Jesus é O Cabeça. O pastor em segunda instancia é membro desde corpo, mas também concedido por Cristo à igreja como responsável por cuidar dela em áreas como segurança, ensino e liderança.

conforme Foulkes:

Os deveres do pastor são: prover o rebanho de alimento espiritual e procurar protegê-lo de perigos espirituais. Nosso Senhor utilizou esta palavra em João 10:11,14 para descrever Sua própria obra, sendo sempre Ele mesmo, o sumo Pastor (Hb 13:20; 1 Pe 2:25; 5:4), sob Quem os homens são chamados a pastorear “o rebanho de Deus” (1 Pe 5:2; Jo 21:15; At 20:28). Cada pastor deve ser “apto para ensinar” (1 Tm 3,2; Tt 1:9), embora seja evidente que alguns possuem preeminentemente o dom de ensino, e pode-se dizer que formam uma divisão particular do ministério dentro da igreja e que são um dom especial de Cristo a Seu povo (At 13:1; Rm 12:7, 1 Co 12:28).[14]

Doutores ou Mestres διδασκάλους – professor, alguém que ensina a respeito das coisas de Deus e dos deveres do homem. Esse é outro aspecto do pastor ligado ao ensino, instrução, exposição e manutenção da doutrina, pois “Não há uma nítida linha divisória entre os dois”[15]. Certamente é plausível afirmar que esse dom pode ser exercido individualmente sem o primeiro aspecto (pastor), mas nunca o primeiro sem este. Segundo Stott:

Talvez se deva dizer que, embora todo pastor deva ser um mestre, tendo o dom de ministrar a Palavra de Deus ao povo (seja a uma congregação, seja a grupos ou a indivíduos), mesmo assim, nem todo mestre cristão é também um pastor (visto que é possível que esteja ensinando somente numa escola ou numa faculdade ao invés de numa igreja local).[16]

A RELAÇÃO QUE RESULTA EM VITALIDADE

É inegável que todos os dons do ensino tratados até o momento se encaixam perfeitamente em um único objetivo. Nessa secção vemos claramente que a concessão e exercício desses cinco dons relacionados ao ensino proporciona uma relação vital que tem como resultado o crescimento e unidade da igreja. Vejamos agora os dois aspectos desse objetivo.

  • O “aperfeiçoamento dos santos para obra e edificação do corpo” é o aspecto prático do objetivo dos dons (v.12). A igreja precisa que todos trabalhem de forma saudável para sua expansão e crescimento, sendo que a função dos que exercem os dons do ensino é capacitar os membros na doutrina para desenvolver de forma bíblica qualquer projeto, atividade ou trabalho que vise à edificação da igreja. Absolutamente tudo que é praticado e vivido deve ser regido pela sã doutrina e a obra do ministério para edificação do corpo não pode progredir sem ela, ou seja, sem o próprio Cristo.
  • “Até que todos cheguem à unidade, conhecimento e estatura de Cristo” é o aspecto visionário do objetivo dos dons (v.13). Pois “Todas essas atividades devem continuar até que a igreja alcance a medida da plenitude de Cristo. É uma unidade a ser alcançada, enquanto a unidade de 4.3-6 é um a unidade já existente”[17]. O aspecto processual da unidade sugerido pelos termos μέχρι καταντήσωμεν “até chegarmos/atingirmos” é reforçado pela expressão encontrada em 1Coríntios 13.8-10 em que temos o exercício dos dons sob a superioridade do amor até a nova realidade trazida pela parúsia ou “coisas vindouras”.

Conforme Carson:

Seu argumento é baseado “no fundamento daquilo que está por vir”.60 Nas memoráveis palavras de Barth, “quando o sol se levanta, todas as luzes se apagam”.61 Quando aquele maravilhoso conhecimento de Deus se tornar o nosso, o propósito dos dons, tais como profecia, conhecimento e línguas, desaparecerá: que possível serventia eles ainda poderiam ter? (3) Certamente não menos importante é o versículo 12a. Agora vemos “como que por um espelho, de modo obscuro”: a expressão sugere uma revelação divina ainda indistinta ou embaçada;62 contudo, quando a “perfeição” vier, “veremos face a face” — quase que uma fórmula para uma teofania na Septuaginta,03 é portanto quase certo que é uma referência ao novo estado trazido pela parúsia.[18]

Logo, a obra para edificação regida pela doutrina aplicada pelos dons é a “missão” ou o que temos que fazer para chegar ao cumprimento da “visão”, ou seja, quem será a igreja. É acrescentado, em seguida, um reforço argumentativo que utiliza um exemplo para mostrar níveis e fases de desenvolvimento já utilizado em outras ocasiões (1Co 3.1; 13.11). Nesse exemplo é utilizada a figura de um menino em sua fase inicial, ingênua e imatura para destacar a incapacidade de distinguir os perigos e enganações doutrinárias provenientes de corações rebeldes que visam prejudicar a unidade proposta por Cristo através dos dons do ensino (v.14). Os perigos doutrinários originários da já citada noção de orgulho e desavenças filosóficas pairavam sobre a igreja primitiva e, de acordo com a secção subsequente (v. 17-24), os gentios são o referencial negativo de tais pensamentos e práticas. Com isso, nos é mostrado um contraste entre o estado imaturo e ingênuo de um menino facilmente seduzido por vãs doutrinas e a maturidade e sabedoria de um homem adulto irredutível como objetivo de Cristo afirmado no verso 13.

Grudem contribui dizendo:

Devemos lutar simplesmente por nos destacar em amar os outros, cuidar dos necessitados, edificar a igreja e viver uma vida de conformidade com o padrão da vida de Cristo. Se assim fizermos, e se Deus decidir dar-nos os dons espirituais que nos equipem para essas tarefas, devemos agradecer-lhe e orar para que ele nos guarde do orgulho por causa dos dons que não merecemos e nos foram dados livre e graciosamente.[19]

Todos os membros do corpo, sob o ensino aplicado pelos dons, devem crescer em um processo continuo até a estatura perfeita conforme o plano de Cristo. E nesse processo, muitas vezes ameaçado por vãs doutrinas, há uma necessidade de aderir incondicional e fervorosamente à sã doutrina vivendo uma realidade em que não há espaço para orgulho, egoísmo, disputas, insurgências, superioridade ou hierarquia, mas um trabalho em conjunto sob auxílio, dependência e valorização do ensino aplicado pelos dons concedidos por Cristo. A verdade e o amor (v.15) são colocados de forma equilibrada em resposta à imaturidade mostrando a atitude de ser verdadeiro, mas não ofensivo ou amoroso, porém não desonesto, visando um crescimento em Cristo como O Cabeça do corpo e responsável pelo ajuste de acordo com a operação de cada membro (v.16). Com um corpo bem ajustado pelo desempenho harmônico de cada membro, o resultado é uma igreja eficientemente saudável e viva.

DEVIDO CUIDADO COM OS DONS E SEUS VETORES

É evidente que todos os dons do ensino precisam ser valorizados devido a sua importância no âmbito de doutrina de Cristo para vida da igreja. Sejam esses dons em aspectos indiretos e reflexivos, mas ativos pelas Escrituras Sagradas, como é o caso dos apóstolos e profetas ou em aspectos de exercício personificado nos dias atuais, como os evangelistas, pastores e mestres. A valorização, assistência e cuidado com os imerecidos, porém soberanamente escolhidos como vetores, deve ser um sentimento refletido em práticas da igreja, pois a harmonia de todo corpo depende de um vínculo proporcionado pela doutrina de Cristo.

Hendriksen afirma:

Posto que aqui em 4.11 todos os que servem à igreja de uma forma especial – não só “os apóstolos, profetas e evangelistas”, mas também “pastores e mestres” – são designados como dons de Cristo para a igreja, eles devem ser objetos do amor de toda a igreja. Se, ao serem verdadeiramente representantes de Cristo, são rejeitados, é Cristo que é rejeitado. 5. E, por outro lado, há aqui também implícita uma admoestação aos próprios líderes, ou seja, que os dons não lhes foram dados para seu próprio bem pessoal, e sim no interesse do corpo de Cristo – a igreja[20]

A igreja mais do que nunca precisa amar e viver única e exclusivamente pelas Escrituras Sagradas que nos incentivam a valorizar e assistir os seus evangelistas, pastores e mestres (hebreus 13.17), pois foram designados por Cristo desde o princípio para ensinar a sã doutrina com o propósito de fundamento, edificação, cuidado e consolidação da igreja até a consumação de todas as coisas. Se não fosse Cristo atuando na concessão dos dons do ensino para igreja, não teríamos a concepção das Escrituras Sagradas e, por consequência, o conhecimento para acesso à salvação; não saberíamos também como desenvolver a vida cristã de modo que agrade a Deus; não entenderíamos sequer o que são dons e muito menos quais as virtudes e práticas que promovem a unidade. Em um momento de ativismos e superficialidade, o ensino de Cristo pelos apóstolos e profetas através das Escrituras Sagradas, não tem sido suficiente para muitos. Os verdadeiros evangelistas, pastores e mestres, comissionados por Cristo, não têm sido ouvidos e cuidados. Infelizmente por conta de pensamentos e práticas egoístas, muitos têm vivido doutrinas vazias e realizado atividades com o intuito aparente de beneficiar a igreja e agradar a Deus. Contudo, se a doutrina de Cristo para o regimento de todos os âmbitos e aspectos da igreja for negada, Cristo é negado, e sem Ele não há unidade ou vida na igreja. Grudem explica a importância dos dons nesse sentido:

Conforme Grudem:

Por fim, ao escrever aos efésios, ele especifica que, quando Cristo ascendeu ao céu, concedeu dons “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12). Porém, os dons espirituais não só equipam a igreja para o período até a volta de Cristo, mas também proporcionam um antegozo da era vindoura. Paulo lembra aos coríntios que eles foram “enriquecidos” em toda a palavra e em todo o conhecimento, e que como resultado desse enriquecimento não lhes faltava “nenhum dom espiritual (1Co L5, 7).[21]

[1] STOTT, John R. W. A Mensagem de Efésios. 6ª. ed. São Paulo: ABU, 2001. p. 111

[2] Ibidem, 2001.

[3] HENDRIKSEN, William. Efésios e Filipenses. 2ª. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 226

[4] STOTT, John R. W. Op cit.,p. 113.

[5] HENDRIKSEN, William. Op cit.,p. 232.

[6] FOULKES, Francis. Efésios: Introdução e Comentário. 2ª. ed. São Paulo: Vida Nova, 1983.p. 211

[7] STOTT, John R. W. Op cit.,p. 116.

[8] PATZIA, Arthur G. Efésios, Colossenses e Filemom. São Paulo: Vida, 1984. p. 232

[9] JONES, D.M. Lloyd. A Unidade Cristã: Exposição Sobre Efésios 4:1-16. São Paulo: PES, 1994. p. 166

[10] HENDRIKSEN, William. Op cit.,p. 233.

[11] STOTT, John R. W. Op cit.,p. 117.

[12] BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Vida, 1979.

[13] STOTT, John R. W. Op cit.,p. 117.

[14] FOULKES, Francis. Op cit.,p. 99.

[15] Ibidem, 2011, p. 99.

[16] STOTT, John R. W. Op cit.,p. 118.

[17] BRUCE, F. F . Op cit.,

[18] CARSON, D. A. A manifestação do Espírito: a contemporaneidade dos dons à luz de l Coríntios de 12—14. São Paulo: Vida Nova, 2013. p. 72,73

[19] GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999. p. 873

[20] HENDRIKSEN, William. Op cit.,p. 232.

[21] GRUDEM, Wayne A. Op cit.,p. 232.

Fabricio Rodrigues

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