Existe um conceito popular de que fé significa que a nossa torcida vai dar certo, que aquilo que estamos esperando vai acontecer, principalmente pelo fato de que pedimos para Deus e, portanto, não tem como dar errado, entretanto, tal conceito de fé carece de entendimento pois não se coaduna com a compreensão bíblica do termo.

A fé baseada no senso comum é um pouco mais do que uma opinião positiva sobre determinado assunto mesmo que em algumas circunstâncias isso contrarie a realidade dos fatos. As vezes por intuição lógica é possível ter fé, todavia, se trata do resultado da percepção do intelecto que leva a uma certeza mesmo que o objeto da fé não esteja sendo perceptível.

A palavra fé aparece largamente ao longo de todo o texto bíblico se referindo primariamente a um entendimento intelectual de que Deus tem o controle de tudo que existe e que sua ação no mundo é soberana e irresistível, não se trata primariamente de algo que atenda um anseio humano.

Todavia, seu sentido está intrinsecamente relacionado com um acontecimento miraculoso, isto, no entanto, não implica em um tolhimento da razão, pois mesmo a ação metafísica de Deus passa pela instrumentalidade humana, seja através da habilidade de um médico ou pela interseção piedosa de alguém.

Isto significa então, que a fé não é dar um tiro no escuro, mas olhar para além das evidências humanas e apoiar as expectativas em Cristo, crendo que ele fará o que for melhor para o homem em cada circunstância, não que ele simplesmente atenderá as expectativas humanas, mas que, aquele que é capaz de descansar nele será suprido em suas necessidades.

O exercício da fé é quem traz esperança (Hb 11.1), é quem faz acreditar no sobrenatural (Hb 11.3), é o que alimenta a comunhão com o salvador (1 Jo 3.23). Homens andaram por essa terra sem ter visto nada do que lhes foi prometido, mas por causa da fé, morreram crendo nessas verdades, por isso falam ao mundo mesmo depois de mortos (Hb 11.8-10).

Este entendimento da fé é resultado de um conhecimento correto de Deus, especialmente de sua misericórdia que gera a certeza de sua bondade na vida da pessoa, convencendo-a continuamente de que sua vontade é sempre superior à dos homens, revelando-se deste modo como o resultado firme e eficaz do entendimento adequado sobre Deus.

A fé é fruto de um relacionamento pessoal com Cristo, não é apenas um assentimento de que a Bíblia é a verdade e que Deus existe, mas um conhecimento racional e espiritual do amor e da misericórdia dele, resultado de uma confiança firme que se opõe à incredulidade.

Ter fé não muda os desígnios divinos, mas traz o convencimento de que Deus sempre age de forma perfeita e plena, satisfazendo sua própria vontade e agindo para o bem dos que o temem, de modo que ter fé significa nunca estar decepcionado com Deus (Hb 11.6), mas convencido de que ele é absoluto em tudo, mesmo que isto implique na insatisfação e na tristeza humana.

A expectativa e a petição do homem temente a Deus são consideradas por ele quando se coadunam com as Sagradas Escrituras, como é o caso da fé que para fazer sentido precisa ser exercitada segundo a Bíblia e não segundo o entendimento comum dos homens, pois se não for assim é apenas um desejo, uma expectativa ou uma esperança que parte de um coração aflito, mas não se identifica com a fé com que Cristo dotou os homens (Hb 12.2).

Olhando a fé nessa perspectiva não fico decepcionado com Deus em nenhuma circunstâncias, pois olho para ele pela fé, o que me faz aceitar sua soberania e a perfeição de sua vontade em todas as circunstâncias da vida, seja o que me traz alegria ou seja o que me traz tristeza (Is 45.7; Am 3.6). Isto não é conformismo como é possível se pensar, mas resultado do devido conhecimento de Deus revelado na Bíblia Sagrada, pois como já dizia Santo Agostinho: “ter fé é assinar uma folha em branco e deixar que Deus escreva nela o que quiser.

Otoniel Oliveira
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