“ROGO-VOS, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.”

A mensagem se inicia com uma conclamação fervorosa de Paulo voltada aos leitores no sentido de incentivá-los para o caminhar digno de uma vocação ou convite que expresse o propósito de Deus na formação de um só povo, através de virtudes e condutas interpessoais que promovam uma unidade (v.1). Já sabemos que pelo contexto de Efésios encontramos uma motivação baseada na conturbada relação entre judeus e gentios e que através da pregação do evangelho confluíram em um único ambiente, que é a igreja. Foukes explica:

O apóstolo está ciente da variedade incontável de diferentes temperamentos entre seus leitores e também da grande diversidade de origens raciais e sociais daqueles que ingressaram no seio da igreja cristã; mas queria que eles estivessem mais cônscios ainda das realidades espirituais que agora os unem e que devem superar completamente as diferenças de origem que traziam.[1]

Logo, algumas qualidades são primordiais para manter uma unidade em meio à diversidade étnica, cultural e religiosa de uma nova realidade proposta pela concepção de igreja. Levando em consideração a natureza ocasional da epístola de Efésios, seu contexto e as virtudes citadas no texto, a seguir, poderemos constatar a que necessidades se remetem cada uma delas (v.2).

(1) Humildade ταπεινοφροσύνηςEsse termo é em seu sentido básico algo baixo, humilde, inferior ou fraco. Pode ser usado para descrever a condição ou qualidade de lugares, mas em relação aos atos alheios é determinante[2]. No contexto que trata basicamente de uma conversão de fluxo que resulta na igreja, temos questões de origens em que vemos o posicionamento dos judeus com expressões e práticas de um forte orgulho por serem descendentes de Abraão (Lucas 3.8; João 8.33-39). Essa tradicional visão de orgulho étnico e religioso incluía o total desprezo pelos gentios (não judeus) considerados como escória, indignos de qualquer providência por parte de Deus. Segundo Lopes:

O desprezo que os judeus sentiam pelos gentios era tão grande que não era lícito a um judeu assistir a uma mulher gentia dar à luz. O casamento de um judeu com uma gentia correspondia à morte dele, e, imediatamente, celebrava-se o ritual do enterro do moço ou da moça. Entrar numa casa gentia tornava um judeu impuro e o deixava inapto para participar do culto público. Para os judeus, os gentios eram apenas combustível para o fogo do inferno.[3]

Em contrapartida, os gentios ou pagãos que se valiam de seus deuses e conhecimentos filosóficos, negavam-se a reconhecer a suficiência de Cristo e sua doutrina (Efésios 4.17; 1 Coríntios 1.22,23). A mensagem propõe inicialmente uma necessidade de quebra de todos esses paradigmas e resistências através de um pensamento que não leve em conta a opinião ou orgulho de si mesmo em nenhum aspecto. Essa humildade pode ser vista de um modo ainda mais profundo em relação a Deus, pois prioritariamente um senso de insignificância diante Dele é indispensável para o seu entendimento e prática. No entanto, o sentido dessa expressão, em relação à conduta cristã, é neste caso o principal foco do texto, pois “Em contraste, a referência em Cl 3.12 é à nova conduta dos cristãos para com os outros. O mesmo se aplica a Ef 4.2, com ênfase na unidade”[4].

 (2) Mansidão πρᾳότητος o termo tem aplicações em diversos gêneros como: animais, objetos ou pessoas e em todas denota suavidade ou leniência[5]. Em se tratando de pessoas, podemos aplicar a gentileza e bondade. São expressões que podemos entender como oriundas do termo anterior, humildade. Um segundo passo ou consequência da decisão de ser humilde seria ser “suave” gentil ou bondoso, porém assertivo, sem levar em consideração qualquer aspecto de estado, origem, religião ou preferência. É uma demonstração prática do pensamento humilde de si mesmo que reforce a intenção de ceder à arrogância pelos conceitos e controvérsias que não permitiriam uma relação em que seja natural a disciplina e correção mútua.  Conforme Kittel e Riedrich:

  1. Paulo. Ao lidar com os contenciosos Coríntios, Paulo exerce a brandura de Cristo, que tem sua base no amor (2Co 10.1; ICo 4.21) e não na fraqueza, praütès é um dom do Espírito em G1 5.23; ele possibilita o crente a corrigir os outros sem arrogância (6.1). Em Cl 3.12 ele é um dos dons da eleição, e em Ef 4.2 ele é digno da vocação cristã.[6]

(3) Longanimidade μακροθυμίαςo termo de modo geral traz uma ideia de “restrição forçada” e encontra reforço na própria atitude divina, pois “O majestoso Deus graciosamente restringe sua justa ira, como em sua obra salvadora em favor de Israel (cf. Êx 34.6, etc.)”[7]. É também nesse sentido, como paciência e tolerância constante. Tendo em vista o mantimento de uma unidade, é uma virtude altamente necessária para continuidade e perpetuação de uma relação em um ambiente diverso e inicialmente imprevisível. Pois os resultados de uma relação com tantas variedades poderiam ter desfechos bastante dramáticos tendo em vista a conturbada relação entre judeus e gentios. A persistência em manter-se no foco de uma unidade, abstendo-se de atitudes drásticas, porém não menos enfáticas, deve ser a mesma ou até maior que o tempo e obstinação em manter os padrões antigos que não favorecem a unidade. Essa paciência é, no entanto, um aspecto semelhante à própria longanimidade divina, atribuída aos crentes como um dos itens que compõe o fruto do Espírito (Gl 5). Não pode ser vista com indeterminação, imparcialidade ou indecisão, mas como algo objetivo que evidencie a misericórdia de Deus, como explicam Kittel e Riedrich:

  1. Longanimidade de Deus. Paulo associa a paciência de Deus à sua ira (Rm 2.4; 9.22). Já manifesta, a ira divina atingirá um clímax somente no dia da ira (2.5). Longanimidade obviamente não significa indecisão ou complacência. Ela não é dirigida por emoção, mas tem o fim em vista. A demora pode possibilitar tempo para arrependimento, mas ela também aumenta a ira. Ela não dá espaço para uma reivindicação com base na bondade de Deus, mas torna evidente o propósito de Deus em sua dimensão escatológica. No entanto, o objetivo não é meramente passivo, pois até mesmo vasos de ira servem para evidenciar a misericórdia de Deus manifestada em vasos de misericórdia (9.22ss.).
  2. A longanimidade cristã. A paciência de Deus compromete os cristãos a uma paciência semelhante (lTs 5.14) que, como fruto do Espírito controlado pelo amor (Gl 5.22), resulta em mútua correção. O amor em si é paciente (ICo 13.4). A paciência é uma qualidade necessária no serviço de Deus (2Co 6.6), unindo conhecimento e bondade. Ela é uma força espiritual que tem sua origem na glória divina e se desenvolve em alegre perseverança (Cl 1.11). Os eleitos a usam como sua nova vestimenta em Cristo (Cl 3.12-13). Ela corresponde ao seu chamado ao único corpo de Cristo (Ef 4.1ss.).[8]

(4) Suporte mutuo ἀνεχό-μενοι – os sentidos que podem ser aplicados nesse termo são receber, tomar, sofrer ou suportar[9] e neste caso as designações mais adequadas são: aceitar ou suportar. Sua morfologia indica um verbo em voz média na segunda pessoa do plural, ou seja, uma ação mutua (reativa) e coletiva. Podemos ver esse vocábulo mais como uma prática do que uma virtude devido a sua semântica, mas levando em consideração seu peso, relevância e contexto, julguemos como fazendo parte da integridade de um cristão. Essa prática mutua de aceitação e suporte é de suma importância em meio ao processo de unificação proposto pela concepção da igreja. Ela revela o fato indubitável de que alguém realmente aceitou a mensagem de unificação pela assimilação de todas virtudes já citadas anteriormente e está disposto a aceitar e suportar de forma incondicional as diferenças que se mostrarão, mas que serão irrelevantes para se manter uma unidade. Kittel  e Riedrich explicam:

  1. “Receber”, “tomar”, “sofrer”, “suportar”. Portanto alguém “recebe” a palavra (Hb 13.22; 2Tm 4.3), “aceita” as pessoas (2Co 11.1), como “aturar” (Mc 9.19), “recebe” ou “sofre” aflições (2Ts 1.4), e suporta em absoluto (ICo 4.12); cf. no absoluto, o adjetivo verbal anektós (“tolerável”) em Lc 10.12.[10]

(5) Amor ἀγάπῃno decorrer dos séculos esse termo ganhou pelo menos três designações que o definiam. Em duas delas, “erán” e “phileín”, vemos um aspecto de superficialidade sendo o primeiro um amor ligado às sensações e o segundo a uma obrigação cordial. Já o “agapán” (com ocorrências raras nos escritos gregos) é uma designação que demonstra um amor altruísta[11]. Com Cristo, o termo ἀγάπῃ ganhou um sentido mais profundo, sendo a expressão do amor de Deus operando por meio do amor dos homens e, no caso do contexto de Efésios, o termo nos remete a um ambiente familiar como palco para o desenvolvimento desse amor. Uma necessidade de ver o outro, não apenas como um indivíduo isolado, mas como um componente da sua própria família. É o ápice e concretização de todas as outras virtudes e práticas mostrando um profundo sentimento que é a expressão do próprio amor divino em família, pois conforme Kittel e Riedrich:

  1. Uma nova humanidade é o objetivo das ações de amor de Deus e Deus usa, para alcançar seus propósitos divinos, os atos do amor humano. Deus é o manancial desses atos (cf. ICo 8.3). Ele faz despertar a fé que se move pelo amor (G1 5.6). Ele invoca seu Espírito para que nos liberte para os atos de amor (G1 5.22). Para Paulo, esse novo amor é supremamente fraternal (G16.10) numa família que tem por fundamento a misericórdia e a morte de Cristo. O amor edifica (1 Co 8.1); ele constrói a obra do futuro. Nele, o poder da nova era irrompe na forma presente do mundo. É por isso que o amor é sempre central quando ligado à fé e à esperança (cf. lTs 1.3; Cl 1.4-5). O amor é o maior dos três, pois somente ele se estende pelo futuro éon (ICo 13.14).[12]

 O esforço ou busca, por guardar ou manter a unidade, expressado pelo termo σπουδάζοντες (v.3), reforça a aplicação de extrema dedicação e constância por parte dos leitores no sentido de fazer o que for necessário para manter a unidade por meio da paz entre todos.

Todas essas virtudes e práticas possibilitam harmonia e paz em um ambiente em que provavelmente só prevaleceria o caos. Suas vivências são passos iniciais para que seja possível pelo menos a convivência no mesmo ambiente e posteriormente o desenvolvimento de uma sólida visão que tem como base a doutrina de Cristo não levando em consideração os interesses próprios, mas o bem-estar coletivo e consolidação da unidade. Nesse sentido, o cuidado na conduta dos cristãos era uma necessidade da igreja primitiva como um corpo e ainda é para igreja atual tendo em vista sua diversidade de personalidades, classes sociais, culturas, entre outras. Esses aspectos que formam indivíduos e setores da sociedade persistiram através dos séculos, assim como a igreja perdurou até hoje sendo composta por essa diversidade. Stott contribui dizendo:

Aqui, pois, temos cinco pedras fundamentais da unidade cristã. Quando estas estão ausentes, nenhuma estrutura externa de unidade permanece. Uma vez lançada esta sólida base, há, então, bastante esperança de que uma unidade visível possa ser edificada. Podemos ter certeza de que nenhuma unidade agrada a Deus se não é fruto da caridade.[13]

Bibliografia

FOULKES, Francis. Efésios: Introdução e Comentário. 2ª. ed. São Paulo: Vida Nova, 1983.

KITTEL, Gerhard; RIEDRICH, Gerhard. Dicionário Teológico do Novo Testamento – vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. 2 v.

LOPES, Hernandes Dias. Efésios. São Paulo: Hagnos, 2009.

STOTT, John R. W. A Mensagem de Efésios. 6ª. ed. São Paulo: ABU, 2001.


[1] FOULKES, Francis. Efésios: Introdução e Comentário. 2ª. ed. São Paulo: Vida Nova, 1983. p. 92

[2] KITTEL, Gerhard; RIEDRICH, Gerhard. Dicionário Teológico do Novo Testamento – vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. 2 v.

[3] LOPES, Hernandes Dias. Efésios. São Paulo: Hagnos, 2009. p. 62.

[4] KITTEL, Gerhard; RIEDRICH. Op cit.,p. 547.

[5] Ibidem, 2013, p. 583.

[6] Ibidem, 2013, p. 297.

[7] Ibidem, 2013, p. 609.

[8] Ibidem, 2013, p. 610.

[9] Ibidem, 2013

[10] Ibidem, 2013, p. 65.

[11] Ibidem, 2013.

[12] Ibidem, 2013, p. 10,11.

[13] STOTT, John R. W. A Mensagem de Efésios. 6ª. ed. São Paulo: ABU, 2001. p.106.

Fabricio Rodrigues

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