A compreensão do Gênero Textual como meio de interpretação bíblica é de suma importância para capacitar pregadores a compreender e expor a Bíblia Sagrada dentro das comunidades eclesiásticas nas quais estão inseridos e envolvidos, pois “o pregador precisa de um entendimento completo da passagem a ser pregada antes de pensar nos mecanismos para transmissão de seu entendimento à congregação”[1]. Aquele que foi chamado para o ministério da pregação não pode prescindir das ferramentas ou métodos para alcançar, de forma exitosa, o significado dos textos bíblicos. Anglada afirma:

A importância do conhecimento de disciplinas, metodologias e técnicas hermenêuticas que auxiliem os intérpretes a avançar na compreensão da Bíblia não deve ser subestimada. O caráter divino-humano das Escrituras exige não apenas oração, mas também labor intelectual.[2]

Anglada é preciso na sua declaração. Em todo o seu ministério de pregação da Bíblia, o mensageiro contemporâneo não pode se esquivar de nenhuma ferramenta que o conduz na exposição correta das Escrituras. A sua própria vocação e compromisso com a Palavra e com a Igreja o levará a buscar o método de compreender as Sagradas Escrituras. Diante dessa realidade, faz-se necessário conhecimento do Gênero Literário como técnica para a interpretação e exposição das Sagradas Escrituras. Aqueles que possuem a responsabilidade de ensinar a Palavra de Deus de modo expositivo devem adquirir esse conhecimento. Klein, Blomberg e Hubbard Jr ratificam essa ideia quando afirmam:

Deus escolheu transmitir a sua revelação a seres humanos de modo que eles possam entender, pela mensagem escrita. Para interpretá-la de forma adequada, então, temos que usar ferramentas literárias porque só elas nos capacitam a entender a Bíblia de forma holística. Elas preparam a nossa mente para que possamos descobrir as suas ideias; eles colocam a nossa imaginação em sintonia para que a sua verdade possa nos envolver emocionalmente. Elas não deixam que interpretemos de forma errada.[3]

É indiscutível que só haverá uma pregação expositiva que seja fiel ao texto bíblico se essa, por seu turno, for fruto de uma correta interpretação bíblica oriunda de análise literária. Sem o conhecimento dos gêneros literários da Bíblia é impossível estabelecer o significado pretendido pelo autor bíblico, isto é, a ideia central.

Conceito de gênero literário[4]

Tem-se abordado no presente trabalho que a Bíblia é Palavra de Deus e Palavra do homem, isto é, uma Palavra Teantrópica. É Palavra de Deus pelo fato de o próprio Deus tê-la inspirado, verbal e plenariamente, a Sua mensagem, essa, por sua vez, transmitida através da escrita de homens aos homens. É Palavra humana pelo fato de Deus usar homens comuns (2 Pe 1.19-21) para exarar a Sua mensagem inspirada. Esses autores usaram da língua, cultura e artifícios literários da época em que viviam de modo consciente, pois não estavam alienados do seu tempo, assim, fazendo da Bíblia uma obra de literatura. Diante dessa verdade, “a interpretação da Bíblia é exigida pela ‘tensão’ que existe entre sua relevância eterna e sua particularidade histórica[5].

Como Palavra do homem, é necessário que se olhe as Escrituras como literatura, sem delir o seu caráter sobrenatural enquanto revelada e inspirada pelo próprio Deus, pois “a Bíblia é, ao mesmo tempo, humana e divina”[6]. Muitos catedráticos das disciplinas de hermenêutica e exegese bíblica, em uma revolução da interpretação bíblica, apontam e advogam essa dimensão da Bíblia, isto é, a Escritura Sagrada dos cristãos é também uma literatura e deve ser lida, interpretada e proclamada como tal.

Ryken ratifica esse pensamento quando afirma que “no âmago dessa revolução há uma crescente conscientização de que a Bíblia é um trabalho literário e de que os métodos desses estudos são parte necessária de qualquer estudo completo.”[7]

Mas o que seria entender a Bíblia como literatura? Novamente, recorre-se a Ryken, que diz:

O que significa ter uma perspectiva da Bíblia como literatura? Significa, em primeiro lugar, ser sensível ao lado experiencial da Bíblia. Significa resistir à tendência de transformar cada passagem bíblica em uma proposição teológica, como se fosse para isso que a passagem existisse. Se há uma coisa que a Bíblia não é, ouso repetir, é um esboço teológico com provas textuais anexadas[8]

Então, como mencionado anteriormente, vários artifícios literários foram usados, os quais fazem com que a Bíblia seja uma literatura. Um desses artifícios literários usados por esses escritores na produção escrita dos livros da Bíblia foi o tipo de literatura específica. Ao se folhear a Escritura Sagrada, percebe-se imediatamente que há uma diferença latente, que salta aos olhos, na forma e estrutura da escrita de um determinado documento canônico para outro. Os escritores bíblicos fizeram uso de vários tipos de literatura específica para expressar aos homens da sua época, ao povo da aliança, a Revelação Divina.

Por exemplo, ao se observar duas passagens bíblicas distintas no Antigo Testamento, Gênesis 12.1-4 e Salmo 100, nota-se, em uma leitura superficial e panorâmica, diferenças na escrita, pois uma literatura específica foi usada para escrever cada um dos textos sagrados em questão. A primeira referência foi escrita em forma de narrativa, enquanto a segunda foi escrita em forma de poesia; uma possui personagens (“Deus e Abrão” – Gn 12.1), a última usa figura de linguagem (“rebanho do seu pastoreio” – Sl 100.3); assim, ficando nítido que uma difere da outra em vários aspectos artísticos, poéticos e literários. Essa literatura específica é chamada de gênero literário[9] ou gênero textual.

GÊNESIS 12.1-4SALMO 100
1) Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei;

 2) de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção!

3) Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.

4) Partiu, pois, Abrão, como lho ordenara o SENHOR, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã.

1) Celebrai com júbilo ao SENHOR, todas as terras.

2) Servi ao SENHOR com alegria, apresentai-vos diante dele com cântico.


3) Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio.

4) Entrai por suas portas com ações de graças e nos seus átrios, com hinos de louvor; rendei-lhe graças e bendizei-lhe o nome.

5) Porque o SENHOR é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade.

 

Aprofundando-se na composição de cada uma dessas referidas passagens veterotestamentárias, são perceptíveis para um intérprete mais treinado outras características que solidificam a diferença e diversidade dos dois gêneros em estudo. O salmo 100 usa do paralelismo hebraico que “é a característica mais óbvia da poesia veterotestamentária. O paralelismo descreve o grande número de repetições entre linhas e partes.”[10] Essa característica mal compreendida ou simplesmente ignorada leva o exegeta a não compreender o salmo. Longman testemunha comentando outro salmo:

Quando li esse Salmo [Sl 2.1-3] pela primeira vez, fiquei surpreso com as repetições. Às vezes, me parecia que o poeta continuava repetindo as frases, sem nenhuma razão aparente. Por que ele quis fazer esse eco? Logo me peguei lendo rapidamente essa poesia, pensando que apenas uma única leitura seria o bastante. Quando me desliguei da leitura, percebi que havia entendido muito mal uma característica importante da poesia hebraica, uma qualidade que, uma vez compreendida, me levaria a uma experiência muito mais significativa com as Escrituras.[11]

Já o autor de Gênesis 12.1-14 lança mão dos recursos literários da narrativa hebraica, como, por exemplo, a cena que não é encontrada como elemento literário da poesia hebraica. A cena exerce um papel fundamental e de primazia na interpretação de narrativas. Walter Kaiser Jr ensina:

A característica mais importante da narrativa é a cena. A ação da história é dividida em uma sequência de cenas, cada uma apresentando o que aconteceu em determinado tempo e lugar. O autor usa cenas para concentrar a atenção em um conjunto de ações ou palavras que ele quer que examinemos.[12]

Diante do exposto, é evidente que cada autor dos referidos textos, inspirados por Deus, utilizou-se de diferentes gêneros literários para transmitir a Palavra de Deus. O pastor e professor Aldo Miranda é assertivo quando diz:

[…] Deus inspirou os escritores bíblicos para escrever o conteúdo, acredita-se também, que semelhantemente Deus conduziu cada escritor a se utilizar de uma forma literária, na qual o conteúdo seria repassado de maneira compreensiva. Tem-se confiado, que a ação de Deus em conduzir os autores na produção da Bíblia, não foi somente no aspecto teológico, todavia também no aspecto literário, por meio do qual o teológico é compreendido.[13]

Um dos princípios hermenêuticos, defendido por muitos estudiosos hodiernos, é identificação[14] do Gênero Literário dos textos bíblicos para uma correta interpretação da Escritura Sagrada e, consequentemente, uma aclarada exposição bíblica. Eles reforçam que somente identificando o gênero é possível uma correta interpretação, pois “gêneros diferentes evocam expectativas e estratégias de interpretação diferentes”[15], pois “o gênero é mais do que um significado de classificação de tipos literários; ele é uma ferramenta epistemológica para destrancar o significado em textos individuais”[16].

Caminha-se agora para uma definição do que vem ser Gênero Literário. Longman conceitua como “um grupo de texto que compartilha semelhança no seu conteúdo, tom ou estrutura”[17]. Wellek e Warren (apud in OSBORNE) [18]acompanham o pensamento de Longman e afirmam que Gênero Literário é como “um agrupamento de obras literárias baseado teoricamente tanto na forma exterior (métrica ou estrutura específica) quanto, também, na forma interna (atitude, tom, propósito – grosso modo, assunto e público).”[19]

Roy B. Zuck define declarando:

Refere-se à categoria ou ao tipo de escrito caracterizado por determinada(s) forma(s) e conteúdo ou um dos dois. A identificação dos diversos gêneros (tipos de literatura) nas Escrituras ajuda-nos a interpretá-las com maior precisão[20].

Somando-se todas as definições acima expostas ao que foi apresentado até esse ponto, o Gênero Literário pode ser definido como uma categoria ou um tipo de literatura caracterizada por uma forma, estilo ou conteúdo, por certas características comuns que transmitem informações de maneira distinta. Cada gênero faz uso de um estilo particular e são organizados dentro de uma estrutura cuja unidade dá sentido às suas partes.

Alguns estudiosos afirmam categoricamente que esse mecanismo de classificação dos livros e textos bíblicos, isto é, os gêneros literários, não funcionam, pois argumentam que “as categorias genéricas mudam de época para época, dependendo do interesse literário, e que cada texto se distingue no uso que faz das formas genéricas”[21].

Sobre essa questão, Osborne[22]argumenta:

[…] as características dos gêneros antigos como uma chave para a interpretar os textos bíblicos. Categorias modernas, quando impostas à estrutura bíblica (por exemplo, a biografia ou a ficção atual usadas como mecanismo para se compreender os Evangelhos), são enganosas e até mesmo prejudiciais à compreensão real. No entanto, a aplicação de características antigas (e dos mecanismos modernos que completam e desvelam a abordagem histórica) é uma técnica hermenêutica necessária […] além disso, argumentos relacionados à ‘mistura’ de gêneros e à diferença entre texto individuais, pertencentes a um gênero particular, não contrariam a função classificatória do gênero […] o livro de Daniel contém seções apocalípticas inseridas no meio da estrutura maior da profecia; os Evangelhos utilizam narrativas, parábolas, provérbios, ensinos e apocalípticos, mas ainda assim funcionam no conjunto como Evangelhos. Porém, o próprio fato de ser possível descobrir unidades genéricas menores dentro de unidades maiores sustenta a possibilidade e, até mesmo, a importância de se classificar os textos em conformidade com as determinações genéricas.

Defende-se a existência dos gêneros literários em toda Escritura e que são fundamentais para uma compreensão correta de qualquer texto bíblico. No entanto, não indo para o extremo de afirmar que as formas literárias da Bíblia são inusuais e dispensáveis para a exata compreensão do texto bíblico, concorda-se com a afirmação de Ronald L. Giese Jr.

Embora a identificação dos gêneros bíblicos com suas características é indispensável à interpretação, gêneros não são absolutos, categorias mutuamente exclusivas. Os gêneros são distinguíveis, mas como agrupamentos literários, haverá algumas peças de literatura que têm as marcas de mais de um gênero. Portanto, o processo de distinção de gêneros literários não é uma ciência exata[23].

Com essas definições, informações e elucidações, o leitor da Bíblia trilhará um novo e seguro caminho da compreensão dos textos bíblicos do Antigo Testamento, pois, ao ler a Bíblia, o leitor e intérprete notarão diversos Gêneros Literários que foram utilizados pelos autores bíblicos inspirados por Deus para comunicar a revelação divina, pois “Deus não usou apenas gêneros humanos em seus atos reveladores para os escritores, mas ele inspirou os escritores a usar vários gêneros à medida que escreviam as Escrituras[24].”

Gênero literário e sua diversidade no Antigo Testamento

Tem-se arrazoado, até esse ponto, que o Antigo Testamento, assim como toda a Escritura, é o conteúdo revelado por Deus, que foi registrado se aplicando o gênero textual como artifício literário. Todavia, os autores bíblicos não se utilizaram de igual forma literária para exarar o material fruto da inspiração divina. Por exemplo, Moisés se utilizou da narrativa bíblica para compor o livro de Gênesis e a lei para construir o livro de Levítico e Deuteronômio. Autores como Davi se utilizaram da poesia hebraica para compor o saltério canônico enquanto os profetas usaram a profecia hebraica.

Então, para uma exata compreensão do gênero literário, o intérprete precisa tanto saber conceituar como também reconhecer e trabalhar as várias espécies de gênero literário usadas pelos autores dos livros do Antigo Testamento. No Primeiro Testamento são apresentados ao exegeta e pregador cinco gêneros literários: Lei, Narrativa Bíblica[25], Poesia Hebraica, Literatura sapiencial e profecia.[26]

Ressalta-se que esses gêneros literários do Antigo Testamento têm por base a prosa e poesia. Além desse fato, é importante destacar que uma determinada forma literária irá apresentar ramificações da sua gênese, assim, requerendo do intérprete mais labor. Por exemplo, Salmos é escrito usando o gênero textual poesia, mas serão encontrados salmos de lamentações ou imprecatórios. Ronald Giese ratifica dizendo:[27]

O Antigo Testamento costuma ser dividido em cinco gêneros. Prosa é dividido em narrativa e lei, poesia em salmo e sabedoria, com a profecia caindo em algum lugar no meio do sinee, muitas vezes é uma mistura de prosa e poesia. Essas categorias são certamente úteis, mas ainda há uma imensa diversidade dentro de qualquer uma dessas cinco formas. É difícil formular uma regra ou diretriz para compreensão da profecia quando, mesmo dentro do mesmo gancho, há diferentes gêneros de profecia usados ​​para propósitos muito diferentes. Portanto, uma divisão adicional é necessária para tornar a análise de gênero mais de uma ferramenta amigável que se ajusta a diferentes tipos de passagens mesmo dentro do mesmo livro bíblico

Para uma melhor compreensão do pensamento de Ronald Geise, observe o gráfico proposto por ele.

Figura 1: Gráfico proposto por Ronald Geise
[28]

Lei[29]

Esse é um dos gêneros literários menos proclamados nos púlpitos hodiernos, além de ser alvo de equivocadas interpretações por parte de muitos expositores, chamando “mais a atenção para a ingenuidade do pregador do que para a Palavra de Deus[30]”. Peter Vogt esclarece ao dizer:

Lei é um dos gêneros mais importantes encontrados no Pentateuco, mas também é um dos mais mal entendidos. Muito frequentemente, leitores do Pentateuco abordam a lei com conceitos de finalidade, função e natureza da lei que refletem uma cosmovisão contemporânea e não a cosmovisão antiga mantida pelo autor original e pelo público receptor do Pentateuco.[31]

O gênero literário lei pode ser definido, pensando na “lei do Antigo Testamento” ou “lei de Moisés”[32], como mandamentos e instruções dados por Deus para o povo da Aliança, para que esse desfrutasse de um relacionamento com o Senhor e constituísse uma sociedade justa. É importante esclarecer que a lei nunca teve o escopo de salvar alguém, ou que fosse de toda cumprida. Quando a nação de Israel recebeu a Lei já era um povo salvo.

A lei, enquanto gênero literário do Antigo Testamento, não fica limitada somente ao livro de Levítico, como muitos concluem equivocadamente, mas se estabelece em todos os cinco livros da Torah, inclusive atuando nas narrativas bíblicas ensinando indiretamente os mandamentos ou instruções de Deus para o seu povo. Estudiosos defendem quatro grandes coleções principais da lei: “Os dez mandamentos e o Código da Aliança (Êx 20.22-23.33), o Código Deuteronômico (Dt 12-26), o Código de Santidade (Lv 17-26), e o Código Sacerdotal (Êx 25-31; 34:29-Lv 16; e partes de Números)”[33].

Por fim, a Lei tem princípios interpretativos bem delineados que são diretrizes hermenêuticas. São esses:

  1. Veja a lei do Antigo Testamento como a palavra plenamente inspirada de Deus para você. Não veja a lei do Antigo Testamento como o mandamento direto de Deus dirigido a você.
  2. Veja a lei do Antigo Testamento como a base da Antiga Aliança, e, portanto, da história de Israel. Não veja a lei do Antigo Testamento como obrigatória para os cristãos da Nova Aliança, a não ser onde for especificamente renovada;
  3. Veja a justiça, o amor e os altos padrões de Deus revelados na Lei do Antigo Testamento. Não esqueça de ver que a misericórdia de Deus é feita igual à severidade dos padrões;
  4. Não veja a Lei do Antigo Testamento como completa. Não é tecnicamente abrangente. Veja a lei do Antigo Testamento como um paradigma que fornece exemplos para a gama inteira do comportamento que se espera.
  5. Não espere que a lei do Antigo Testamento seja frequentemente citada pelos profetas nem pelo Novo Testamento. Lembre-se de que a essência da Lei (os Dez mandamentos e duas leis principais) é repetida pelos profetas e renovada no Novo Testamento;
  6. Veja a lei do Antigo Testamento como uma dádiva generosa a Israel, trazendo muitas bênçãos quando é obedecida. Não veja a lei do Antigo Testamento como um agrupamento de regulamentos arbitrários e irritantes que limitam a liberdade das pessoas.[34]

Então, conhecendo melhor esse gênero literário e também os seu princípios de exposição, o pregador ou professor terá em suas mãos um rico material para edificar a igreja de Cristo.

Poesia hebraica

É indiscutível que o livro de Salmos exerce uma grande atração sobre os cristãos contemporâneos, ao ponto de passagens extensas ou salmos inteiros serem completamente decorados e lidos de forma recorrente nas devoções pessoais ou públicas. A beleza poética salta aos olhos do leitor, assim, despertando o seu interesse e prendendo a sua atenção no saltério canônico.

O livro dos Salmos, uma coletânea de orações e hinos inspirados hebraicos, é provavelmente, para a maioria dos cristãos, a porção mais conhecida e mais amada do Antigo Testamento. O fato de que os Salmos frequentemente são anexados a exemplares do Novo Testamento, e de que são usados tão frequentemente na adoração e na meditação deu a este livro específico um certo destaque.[35]

Essa coleção de salmos foi escrita tendo como gênero literário a poesia hebraica, que é “um tipo de literatura que se comunica com linhas concisas que empregam paralelismo e imagens com grande frequência[36]”. O Salmo 42.1 exemplifica essa definição:

Como suspira a corça

pelas correntes das águas,

assim, por ti, ó Deus,

suspira a minha alma

Aqui, o poeta bíblico faz uso do paralelismo com a intenção de reforçar a verdade que está sendo dita na primeira parte na segunda parte com palavras diferentes, mas transmitindo a mesma ideia. Além disso, o autor do salmo em questão usa linguagens figuradas e imagens: “corça” e “corrente de águas”, assim, tornando bem vívida a mensagem que deseja transmitir.

Somada a esses dois recursos, o autor do salmo também usa símile para realçar a sua poesia. “Um símile traça uma correspondência entre duas coisas usando a fórmula explícita ‘como’ ou ‘qual’”[37]. Nesse caso, a alma que suspira por Deus corresponde à corça que suspira pelas correntes das águas.

Diante dessas evidências literárias, percebe-se que a poesia hebraica é um gênero literário que necessita ser corretamente interpretado conforme a sua estrutura e características[38]. Interpretar e expor a poesia hebraica alienado das particularidades reclamadas pelo tipo textual resultará em gravíssimos erros interpretativos.

Literatura Sapiencial

Por causa do seu caráter poético[39], livros como Jó, Provérbios e Eclesiastes[40] são tidos por alguns como poesia hebraica. Mas isso é um equívoco em relação a essa literatura bíblica, pois, apesar do seu caráter poético, eles são classificados como literatura sapiencial, que é “um dos gêneros bíblicos menos conhecidos[41].”

Osborne também alerta para o fato do mau uso desse gênero literário.

Poucas pessoas sabem de fato como lidar com tais obras. Poucos sermões são apresentados com base nesse corpo da literatura, e mesmo quando isso ocorre, a exposição é feita de forma inadequada, com a finalidade de defender um estilo de vida quase secular.[42]

Diante dessa constatação, é indispensável ter uma compreensão exata de como essa literatura funciona. No entanto, essa questão funcional precisa ser compreendida à luz da prática vivencial e filosofia do povo de Israel e não simplesmente fazendo uma aplicação direta para os dias atuais.

A literatura sapiencial é fruto das observações dos sábios, recheadas da sabedoria a respeito da realidade, tendo como ponto de partida a criação. Então:

O leitor tem que se lembrar de que as raízes do pensamento de sabedoria se encontram na teologia da criação. A pessoa não adquire a sabedoria por receber a revelação divina, mas ao registrar observações sobre o que funciona ou não funciona na vida diária no mundo criado por Deus. Baseada na criação, a sabedoria traz uma forma indireta e limitada de revelação. Os seus princípios são hipotéticos porque eles podem ser suplantados pela liberdade misteriosa de Deus (e.g., Jó), pelo ensino de outra revelação direta ou por outros fatores fora do controle do observador.[43]

Soma-se, nesse quesito da aplicabilidade, o sujeito do “homem sábio”, que vive uma vida nesse mundo, não de forma alheia ou monástica, mas na dependência exclusiva de Deus, vivenciando os princípios divinos diariamente e em todas as áreas da existência humana, como, por exemplo, trabalho, casamento, família etc.

Esse “homem sábio” é resultado de uma orientação prática que o coloca no seu devido lugar na sociedade e o diferencia dos demais homens que ignoram a Deus. Ele é o antônimo do ímpio, do escarnecedor, do adúltero, do preguiçoso, do insensato, do perverso, do estúpido, dos loucos e do difamador.

Em terceiro, é importante lembrar que o foco dos três livros sapienciais é que a sabedoria está em Deus. Jó, Eclesiastes e Provérbios, mais do que outros livros da Bíblia, excedem no tema da sabedoria, tendo essa a sua origem em Jeová.

Todos os três livros, de maneira distinta, mostram-nos o valor da verdadeira sabedoria. Ela, basicamente, não é algo aprendido de outras pessoas ou obtido aos poucos através da observação do mundo, pois a mera observação da vida levou o Qohelet a concluir que tudo era ‘vaidade’. A verdadeira sabedoria, que dá significado a nossa vida, vem de Deus. Os últimos versos de Eclesiastes nos levam de volta a Deus e nos dizem para temê-lo. Esta frase nos faz recordar os primeiros versos de Provérbios (1.1-7), que introduzem todo o livro e terminam com a declaração: ‘O temor do Senhor é o princípio do saber.’[44]

Por fim, o intérprete precisa identificar os vários subgêneros que são formas da Literatura Sapiencial.

Tabela 1: Subgêneros – formas da Literatura Sapiencial[45]

1. Provérbio6. Hinos e orações
2. Ditados7. Diálogo
3. Enigma8. Confissão
4. Admoestação9. Onomástica
5. Alegoria10. Bem-aventuranças

Profecia

O atentado às torres gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, foi uma tragédia marcante e terrível para o Mundo, especialmente para o Ocidente. Diante de tantos fatos relacionados àquele inesquecível e lamentável episódio da história humana, destaca-se um aqui. Muitos ditos “cristãos” e “expositores” da Palavra de Deus interpretaram o atentado[46] como o cumprimento de uma passagem do livro do profeta Daniel. Segue o texto em questão:

No ano terceiro do reinado do rei Belsazar, eu, Daniel, tive uma visão depois daquela que eu tivera a princípio. Quando a visão me veio, pareceu-me estar eu na cidadela de Susã, que é província de Elão, e vi que estava junto ao rio Ulai. Então, levantei os olhos e vi, e eis que, diante do rio, estavam um carneiro, o qual tinha dois chifres, e os dois chifres eram altos, mas um, mais alto do que o outro; e o mais alto subiu por último. Vi que o carneiro dava marradas para o ocidente, e para o norte, e para o sul; e nenhum dos animais lhe podia resistir, nem havia quem pudesse livrar-se do seu poder; ele, porém, fazia segundo a sua vontade e, assim, se engrandecia. Estando eu observando, eis que um bode vinha do ocidente sobre a terra, mas sem tocar no chão; este bode tinha um chifre notável entre os olhos; dirigiu-se ao carneiro que tinha dois chifres, o qual eu tinha visto diante do rio; e correu contra ele com todo o seu furioso poder. Vi-o chegar perto do carneiro, e, enfurecido contra ele, o feriu e lhe quebrou os dois chifres, pois não havia força no carneiro para lhe resistir; e o bode o lançou por terra e o pisou aos pés, e não houve quem pudesse livrar o carneiro do poder dele.(Daniel 8.1-7)[47]

Geralmente, expositores contemporâneos são tendenciosos ao interpretar profecias bíblicas pela lente dos eventos atuais, como se as profecias bíblicas fossem exaradas tendo unicamente os eventos futuros como cumprimento. Um dos fatores que conduzem a esse tipo de comportamento interpretativo é falta de propriedade sobre o gênero literário profecia bíblica, que leva à definição de futurologia. A respeito disso, Walter Kaiser corrige e esclarece afirmando:

A profecia bíblica é um gênero bíblico mais amplo do que a maioria das pessoas pensam [sic]. Muitos ligam a palavra profecia à ideia de futurologia. Mas, em sua grande parte, tanto a profecia dos profetas mais antigos (Josué, Juízes, Samuel e Reis), quanto dos profetas mais recentes (Isaías, Jeremiais, Ezequiel, Daniel e os doze profetas menores) e dos profetas do Novo Testamento, na verdade envolve os mensageiros de Deus na proclamação da Palavra do Senhor para a cultura contemporânea que precisava ser mudada, a fim de deixar de resistir à palavra de Deus. Nesse sentido, esses profetas eram ‘proclamadores’.[48]

Esse é um equívoco central na interpretação e proclamação das profecias bíblicas do Antigo Testamento. Como bem elucidado por Kaiser, esse erro se dá por essa visão embaçada do profeta e das suas profecias. Além disso, o erro interpretativo é maximizado por não se conhecer as características da profecia bíblica.

Uma das particularidades desse gênero literário é que ele está subdividido em: oráculos de salvação (Jr 33.1-9), anúncios de julgamentos (Am 7.17) e lamentações. Outro aspecto singular dessa espécie textual é que o profeta e sua profecia eram uma ponte que vincula o presente e o futuro. “O profeta era principalmente aquele que antevia, e mensagem que ele transmitia era dirigida ao povo e à situação de seu tempo, e prever era, na realidade, parte do propósito maior”[49]. Soma-se a isso que a profecia não era original, mas sim baseada na Lei revelada ao povo da Aliança.

Caminha-se agora para a interpretação correta do gênero em análise. Para uma correta interpretação da profecia bíblica, é indispensável seguir os seguintes princípios hermenêuticos, que são propostos por Osborne (2009)[50]:

  1. Determine um Provérbio específico;
  2. Determine o tipo de oráculo empregado;
  3. Estude o oráculo particular levando em conta toda a profecia e usando técnicas macro e microexegéticas;
  4. Estude o equilíbrio entre o histórico e o profético;
  5. Determine a presença do significado literal ou símbolo;
  6. Descreva com cuidado as ênfases cristológicas;
  7. Não imponha seu sistema teológico ao texto;
  8. Procure situações análogas na igreja de hoje.

Gênero literário e a interpretação do Antigo Testamento

Ouvindo-se sermões ou lendo livros e revistas para Escola Bíblica Dominical, nota-se vários erros interpretativos de passagens veterotestamentárias, que criam ruídos na comunicação de Deus com o seu povo através da Sua Palavra revelada. As narrativas bíblicas do Antigo Testamento sofrem reveses interpretativos por parte de expositores e escritores que insistem em produzir pregações ou lições no referido gênero sem antes conhecê-lo.

Para exemplificar essa constatação, observe o uso da narrativa bíblica de 2 Reis 4.8-37 para a produção de uma lição bíblica no material de culto infantil[51] da Editora Cristã Evangélica. A intenção da revista é usar as famílias da Bíblia como um modelo para as famílias hodiernas.

Por não atentar para a questão do gênero textual, isto é, narrativa bíblica, a lição é confeccionada sem levar em consideração o que, de fato, é dito pelo texto. O tema “uma família hospitaleira”[52] e a conclusão da lição que diz:

Aquela família foi muito boa para Eliseu e o ajudou hospedando-o e até construindo um quarto onde ele poderia descansar das viagens e passar momentos agradáveis. A família hospedou Eliseu sem esperar nada em troca, mas Deus a recompensou dando-lhe um filho, e, quando o menino ficou doente e morreu, Deus o ressuscitou.[53]

Apesar da boa intenção do autor da lição em querer transmitir o princípio cristão da hospitalidade e das excelentes dicas didáticas para o bom desenvolvimento do aprendizado das crianças, o texto bíblico em questão não ensina isso. Como intérpretes dos textos do Antigo Testamento, para não cair em erros interpretativos como esse, é imprescindível compreender que “na composição escrita, o importante não é simplesmente o que é dito, mas o como é dito”[54].

Além disso, Greidanus alerta para o que ele chama de “erro de gênero”:

Um erro de gênero ocorre, por exemplo, quando o gênero de profecia ou apocalipse é entendido como uma narrativa histórica ou quando uma parábola é entendida como uma narrativa histórica, ou ainda uma afirmação descritiva é entendida como prescritiva. Um erro de gênero conduz a uma interpretação defeituosa porque o intérprete fará as perguntas erradas. Numa forma negativa, então, o erro de gênero nos alerta para o fato de que a percepção que a pessoa tem da forma literária do texto determina as perguntas que ela faz[55].

Nenhum intérprete das Sagradas Escrituras pode, no processo de interpretação, negligenciar o gênero literário, pois “[…] o gênero fornece um conjunto de matrizes descritivas […]” as quais instrumentalizam os princípios gerais da hermenêutica bíblica-reformada e permitem ao intérprete uma maior precisão na descoberta do significado pretendido pelo autor. Então, “aprender os princípios de interpretação de cada tipo literário é de valor inestimável, uma vez que se encontram vários tipos de características topográficas em nosso percurso interpretativo[56].”

Então, conclui-se que é indispensável uma compreensão e uso dos gêneros literários para se compreender e elucidar as passagens bíblicas do Antigo Testamento, pois:

cada gênero literário incorpora padrões literários característicos que são exclusivos àquela forma em particular. As formas literárias trazem consigo efeitos especiais para o leitor ou ouvinte que indicam um conjunto particular de condições para interpretar essas formas. As parábolas não devem ser lidas como lamentações ou salmos de louvor. E um gênero apocalíptico não deve ser lido como um gênero narrativo ou milagre.[57]

Sem sombras de dúvida, o gênero literário é indispensável para uma compreensão exata e exímia de qual porção do Antigo Testamento.

Gênero Literário e a pregação expositiva do Antigo Testamento

Muitos livros ou manuais de homilética e pregação já foram publicados em língua portuguesa. Tais obras literárias e acadêmicas são utilizadas em seminários e faculdades teológicas na cátedra de homilética como livros-texto e altamente recomendáveis pelos docentes da referida matéria. Todavia, são poucos desses escritos que dedicam um ou mais capítulos para tratar sobre hermenêutica tendo como base a questão do gênero literário, mormente os gêneros do Antigo Testamento e mais especificamente as narrativas bíblicas.

As unidades ou capítulos desses compêndios homiléticos são precisos na elucubração no que tange a pregação expositiva. Definem-na com propriedade bíblica, histórica e experimental. No entanto, esses livros, em sua maioria, esquecem de que o gênero literário é fundamental para que se tenha uma pregação expositiva nos textos do Antigo Testamento. Não se pode pregar expositivamente qualquer passagem veterotestamentária ignorando o que texto bíblico diz através do gênero textual usado pelo escritor inspirado por Deus, pois “a forma do texto fornece auxílio para a formatação do sermão, para que ele faça justiça ao conteúdo moldado originalmente”[58].

Sugel Michelén oferece um precisa definição do que é pregação expositiva:

Um sermão expositivo é aquele que expõe e aplica o verdadeiro significado do texto bíblico, levando em consideração seu contexto imediato, assim como o contexto mais amplo da história da redenção, que gira em torno da pessoa e da obra de Cristo, com o propósito de que ouvinte ouça a voz de Deus através da exposição e de que seja transformado.[59]

Destaque-se nessa citação o seguinte: “expõe e aplica o verdadeiro significado do texto bíblico”, mostrando que um sermão só é expositivo quando tal tarefa é cumprida com precisão. Para tal feito, é necessário compreender e usar os gêneros literários para interpretação e exposição – essa premissa também se aplica aos textos escritos em Narrativa Bíblica.

Assim, partindo do geral, no último capítulo do livro “Cracking Old Testamente Codes”, é denunciada a alienação voluntária e involuntária de pregadores e professores que não usam o gênero literário para ensinar e para pregar expositivamente. Pensando no particular, isto é, nas narrativas bíblicas, o livro “Pregação: como pregar biblicamente”, editado por John MacArthur, é um dos poucos manuais de pregação expositiva que apresentam um capítulo dedicado à narrativa bíblica e pregação expositiva. Lá, David C. Deuel apresenta a interação entre a pregação expositiva e correta interpretação das narrativas bíblicas. Ele diz:

Uma parte significativa da Bíblia é dedicada a seções de literatura narrativa, também chamada de ‘histórias’. As vantagens desse tipo de pregação ainda não foram completamente percebidas porque os pregadores não têm pregado estas seções exatamente como elas se encontram no texto. As vantagens a serem destacadas incluem o interesse intrínseco envolvido em tais estórias, a natureza padronizada das estórias, as verdades atemporais ilustradas e a maneira como essas estórias se emprestam para facilitar a aplicação das verdades. Ainda assim, certas precauções se fazem necessárias quando se prega em seções narrativas. Não se deve impor a elas uma estrutura artificial. As estórias não devem ser empregadas simplesmente com recurso de ilustração para o restante da Bíblia. Elas não são apenas exemplos de obediência ou desobediência à lei de Deus. Ao observar estas diretrizes e precauções, o pregador expositivo pode utilizar-se das seções narrativas para auferir grandes vantagens em sua pregação.[60]

Alguns manuais de homilética se atêm mais à beleza poética da estrutura do sermão do que à estrutura literária do texto que será exposto na pregação. Um sermão exarado pelo pastor e professor Jilton Moraes[61] no seu livro de homilética é um exemplo de como a estrutura homilética, em muitos casos, tem sobreposto a estrutura do texto. Observe:

Tabela 2: Estrutura Homilética[62]

PEDRAS NO UNGIDO DO SENHOR
Texto: 2 Sm 16.5-14
1. ATIRADAS PELA INSATISFAÇÃO

a. Insatisfação motivada pelo saudosismo

·         Simei era comprometido com a liderança anterior.

(v. 5) “um homem do clã da família de Saul”

·         Há pessoas que não estão satisfeitas com a liderança atual porque resolveram viver em função do passado.

Muitas vezes esse saudosismo está provocando uma insatisfação pessoal. A insatisfação não é apenas com a liderança, mas com tudo o que diz respeito ao presente.

b. Insatisfação motivada pela rejeição

·         Simei não aceitava a liderança de Davi (v.7): “Sai daqui, saia daqui! Assassino! Bandido!” A liderança anterior (Saul) não havia sido agradável, mas Simei resolvera rejeitar seu líder atual.

·         Referências desagradáveis enaltecendo o passado, em detrimento do presente, nem sempre são a expressão da verdade.

·         Às vezes, o líder é rejeitado por não ser uma cópia do antecessor.

c. Insatisfação que pode ser convertida em bênção

A bênção de procurarmos dar o melhor de nós mesmos para o trabalho; A bênção de procurarmos servir em amor. A benção de procurarmos satisfazer sempre ao Senhor da Seara. Pedras nos são atiradas pela insatisfação e, outras vezes, são…

2. ATIRADAS PELA INGRATIDÃO

a. Que leva o homem a forjar conceitos injustos sobre o próximo

Davi, ao enfrentar Golias, apresentou-se como homem de Deus (1 Sm 17.45,47). Simei o classificou como adversário do Senhor (v. 7). Quantas vezes conceitos variam de um extremo a outro!

 b. Que leva o homem a apedrejar quem antes era ,,,idolatrado

Ao vencer Golias [sic], Davi foi aclamado (1 Sm 18.7).

Agora, era apedrejado. Simei esquecera os bens que o rei fizera. Pessoas que antes idolatram o líder, depois o apedrejam!

Devemos não aceitar que nos idolatrem, para que depois não nos apedrejem. Temos virtudes e defeitos, capacidades e limitações.

c. Que pode motivar o servo do Senhor e agir positivamente

Davi não aceitou a ideia de ele mesmo fazer justiça.

Devemos depender mais e mais do Senhor.

Nossa força vem dele e não do reconhecimento humano.

Devemos procurar conhecer mais e mais a nós próprios.

Quem sou? Por que estou aqui? O que estou realizando?

·         Não devemos viver ávidos pelo reconhecimento humano.

Servimos a Cristo: nosso galardão vem dele.

Mais importante que sermos elogiados pelos homens, é sermos achados fiéis pelo Senhor!

O mundo atira pedras por insatisfação, ingratidão, e incompreensão…

3. ATIRADAS PELA INCOMPREENSÃO

a. Nos momentos mais difíceis

·         A situação de Davi era bastante desagradável:

Um filho havia sido assassinado;

Foi traído por outro filho;

Perdia o trono para o filho traidor;

Fugia para não morrer.

A história descreve a sua tristeza e angústia (2 Sm 15.30)

Desagradável situação para um rei!

Geralmente pedras são atiradas nos momentos mais difíceis, e …

 b. Das formas mais cruéis

Simei foi cruel, saindo às ruas para apedrejar o Rei! (ilustração: “criticar é fácil”)

A incompreensão leva pessoas a atirarem as pedras da crítica, com o propósito único de ferir. Mas as pedras atiradas pela incompreensão podem ser recebidas.

 c. Com resultados surpreendentes

A coragem de não procurar ferir quem apedreja: a atitude de Davi. Haverá um filho de Zeruia disposto a entregar a cabeça ao próximo.

Devemos pedir a Deus coragem para não retribuir com a vingança. A sabedoria de procurar descobrir, diante de Deus, a razão do apedrejamento (v. 11 e 12)

A fé e a visão de esperar o futuro (v.12)

Algumas vezes os atiradores de pedras voltam arrependidos.

O apedrejador de hoje pode ser um cooperador amanhã.

Nota-se uma bela estrutura homilética de um sermão definido como expositivo. Uma longa passagem bíblica, dividida em três pontos principais que estão rimando e são de fácil apreensão pelos ouvintes, com os seus subpontos bem definidos e concordando plenamente com o seu ponto principal. Com uma estrutura lógica com começo, meio e fim. Homileticamente, segundo algumas escolas, um sermão expositivo perfeito.

Todavia, o referido escritor não levou em consideração uma interpretação baseada no gênero literário do texto. 1 Samuel 16.5-14 é uma narrativa bíblica e deve ser interpretada como tal, para que seja proclamada através de um estudo ou sermão expositivo. Por exemplo, o sermão não foi dividido de acordo com as cenas, os princípios trabalhados não são o princípio central da história. Percebe-se uma “moralização” e “espiritualização” do texto. Não é apresentada a ideia central da narrativa e Deus não é apontado como o principal personagem. É conclusivo que a forma homilética determinou a forma do texto bíblico.

Por serem alheios aos gêneros literários do Antigo Testamento, muitos pregadores estão falhando em proclamar expositivamente o Primeiro Testamento, pois pregar expositivamente é dizer o que, de fato, o texto bíblico diz. Para tal ação, é necessário interpretar de forma inequívoca a passagem bíblica. Então, o reconhecimento do gênero textual e seus elementos são indispensáveis para a correta compreensão e, assim, pregar expositivamente a passagem veterotestamentária.

Quando se pensa na narrativa bíblica, o foco do presente trabalho, também são perceptíveis os desastres interpretativos, culminando em um sermão dito expositivo, mas que não expôs corretamente o texto bíblico. Por exemplo, no livro de Gênesis, no capítulo 39, encontra-se a narrativa bíblica de José na casa de Potifar, onde José prospera “porque o Senhor era com ele” e também quando jogado na prisão é dito “que o Senhor era com ele”, isso se repetindo por diversas vezes em toda narrativa, deixando claro que o narrador, dentro do seu ponto de vista, queria mostrar para Israel que “Deus está presente tanto na prosperidade quanto na adversidade”. No entanto, é comum pregadores se prenderem ao fato de José ter fugido do convite sedutor da mulher de Potifar, para pregarem sobre pureza sexual, luta contra a pornografia ou como evitar o adultério.

Aqui, o pregador cometeu o erro de seletividade (escolheu uma parte da narrativa), da descontextualização (tirou o texto escolhido do seu contexto literário), da moralização (“faça como José do Egito!”) e da espiritualização (“fuja do pecado da imoralidade sexual!”).

Esses exemplos de lições e sermões baseados em narrativas bíblicas do Antigo Testamento não alcançaram o escopo da pregação expositiva, pois não foram observadas as regras de interpretação impostas por esse tipo textual, assim, não expondo o sentido correto do texto. Se não houve uma correta interpretação da narrativa bíblica, logo se conclui que não houve uma proclamação expositiva.

Então, fica provado que, para evitar erros como esses em qualquer texto bíblico, o intérprete é convocado a ter uma correta compreensão do que é o gênero literário e sua instrumentalização nas Sagradas Escrituras.

Diante do exposto, passa-se afirmar, categoricamente, que somente acontecerá uma genuína pregação expositiva em textos narrativos da Escritura Sagrada, quando o pregador aprender a lidar com o gênero de narrativa bíblica.

[1] ROBERT L. THOMAS. MACARTHUR, John (edit). Pregação: Como pregar biblicamente. Eusébio, CE: Peregrino, 2018, p. 161.

[2] ANGLADA, 2006, p. 21.

[3] KLEIN, William W; BLOMBERG, Craig L.; HUBBARD JR, Robert L. Introdução à Interpretação Bíblica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017, p. 517-518.

[4] Também denominado de Gênero Textual.

[5] FEE; STUART, 1997, p. 17.

[6] Ibid., p. 17.

[7] RYKEN, 2017, p.9.

[8] Ibid., p. 17.

[9] Cássio Murilo Dias da Silva, em seu livro Metodologia de Exegese Bíblica (2000), publicado pela Editora Paulinas, afirma que “Desde os primeiros decênios do século XX, um grupo de exegetas, em base às conclusões trazidas pela Crítica Literária, começou a comparar textos formalmente semelhantes, mesmo se tais textos apresentassem diferenças quanto ao seu conteúdo. O precursor desse trabalho foi Hermann Gunkel, que realizou estudos nos livros de Gênesis e Salmos” (p.185). Todavia, é importante ressaltar aqui que esses estudiosos aqui citados seguem uma linha de estudo crítico, alta crítica, crítica literária e método histórico-critico. O objetivo em citar esses teóricos foi apenas para mostrar a origem do estudo do Gênero Literário. O presente trabalho não concorda com o pensamento dessa linha exegética e interpretativa das Escrituras.

[10] LONGMAN, Tremper III. Lendo a Bíblia com o Coração e a Mente: Como ler de modo proveitoso para compreender e aplicar a Palavra de Deus em sua vida.São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 141.

[11] Ibid, p.141.

[12] KAISER; SILVA, 2000, p. 67

[13] MIRANDA, Aldo. O Gênero Literário e a Interpretação Bíblica. In: ENSAIOS CIENTÍFICOS. SEMINÁRIO CRISTÃO EVANGÉLICO. São Luís – MA, 2012, p. 15.

[14] Grant Osborne, em seu livro “Espiral Hermenêutica”, aponta para o fato de que alguns estudiosos descartam a possibilidade de usar os gêneros literários encontrados na Bíblia para a interpretação atualmente. Esses, por sua vez, consideram os gêneros bíblicos ultrapassados e irrelevantes. Outros vão em outra direção, que, apesar de reconhecer a existência de Gêneros Literários na Escritura Sagrada, advogam que esses não são passíveis de uma definição exata, consequentemente dificultando o labor do intérprete.

[15] LONGMAN, 2003, p. 92.

[16] OSBORNE, 1983, apud GREIDANUS, 2006, p. 31.

[17] LONGMAN, 2003, p. 92.

[18] WELLEK; WARREN apud OSBORNE, 2009, p. 227.

[19] OSBORNE, 2009.

[20] ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica: Meios de descobrir a verdade da bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 147.

[21] OSBORNE, 2009, p.228.

[22] Ibid., p.228-229.

[23] SANDY, D. Brent; GIESE, Ronald L. Jr. Cracking Old Testament Codes: A guide interpreting the literary genres of the Old Testament. Tennessee: Broadman and Holman Publishers, 1995, p. 16.

[24] Ibid., 1995, p. 67.

[25] Aqui não será tratado um tópico sobre narrativa bíblica, pois o próximo capítulo será destinado para versar especificamente a respeito desse gênero literário.

[26] Cássio Murilo (2000), em Metodologia de Exegese Bíblica, traz a seguinte classificação para os vários Gêneros literários encontrados no Antigo Testamento: Tradição histórica (novela, saga, lenda etc.), Tradição Jurídica (direito apodítico, direito casuístico etc.), Tradição Profética (palavra de desgraça, relato de ação simbólica etc.), Tradição Sapiencial (Mashal, poemas didáticos etc.) e Tradição dos Cantos (Cantos da Vida Cotidiana, Cantos Cultuais etc.).

[27] SANDY; GIESE, 1995, p. 27.

[28] Ibid, p. 18.

[29] Christopher J.H. Wrigt, em Como pregar e ensinar com base no Antigo Testamento (Mundo Cristão) apresenta uma distinção entre o termo “Lei”, quando esse se refere aos cinco primeiros livros da Bíblia conhecidos como Torah, e “leis do Antigo Testamento” como gênero literário para transmissão da revelação de Deus para o povo de Israel.

[30] GREIDANUS, 2006b, p.159.

[31] VOGT, Peter. Interpretação do Pentateuco: um prático e indispensável manual de exegese. São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 26.

[32] WRIGTH, 2018.

[33] KLEIN; BLOMBERG; HUBBARD, 2017, p. 543.

[34] FEE; STUART, 1997, p. 152.

[35] Ibid., p. 176.

[36] FUTATO, Mark D. Interpretação de Salmos: Um prático e indispensável manual de exegese. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 14

[37] RYKEN, 2017, p. 87.

[38] Os livros que aqui serão considerados como Literatura Sapiencial, no cânon hebraico são denominados de “Escritos” e estão juntamente com as seguintes obras canônicas: Salmos, Rute, Cântico do Cânticos, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras, Neemias, 1 e 2 Crônicas.

[39] Ryken defende que “grande parte da literatura de sabedoria da Bíblia é expressa na forma de paralelismo. Porém, ainda que os provérbios estejam em verso ou prosa, eles utilizam os recursos da linguagem figurada com frequência. Tudo o que eu disse sobre linguagem poética no capítulo sobre poesia aplica-se aos provérbios; aliás, os provérbios poderiam, de forma legítima, ser incluídos entre os tipos de poesia bíblica.” (cf. Para Ler a Bíblia como Literatura, p.117).

[40] Alguns estudiosos acrescentam o livro de Cantares.

[41] OSBORNE, 2009, p. 309.

[42] Ibid., p. 309.

[43] KLEIN; BLOMBERG; HUBBARD JR, 2017, p. 613.

[44] LONGMAN, 2003, p. 163. Ibid., p. 163.

[45] Ibid, p. 163.

[46] A maior evidência dessa afirmação é uma rápida consulta na internet. Ao colocar “Daniel e as torres gêmeas”, logo aparecem dezenas de site ou blogs falando dessa equivocada interpretação.

[47] Almeida Revista e Atualizada.

[48] KAISER JR; SILVA, 2002, p. 135.

[49] OSBORNE, 2009, p. 339.

[50] Recomenda-se a leitura das páginas 345 a 350 do livro “A espiral hermenêutica” do autor citado. Lá, Grant Osborne explica detalhadamente cada um desses princípios para interpretar a profecia bíblica.

[51] CULTO INFANTIL. Aprenda com as famílias da Bíblia, revista nº 10. São José dos Campos: Editora Cristã Evangélica.

[52] CULTO INFANTIL. Aprenda com as famílias da Bíblia, revista nº 10. São José dos Campos: Editora Cristã Evangélica, p. 50.

[53] Ibid., p. 51.

[54] RYKEN, 2017, p. 21.

[55] GREIDANUS, 2006b, p. 32.

[56] KOSTENBERGER; PATTERSON, 2015, p. 226.

[57] KAISER, 2010, p. 64.

[58] GREIDANUS, 2006b, p. 34.

[59] MICHELÉN, Sugel. Da parte de Deus e na Presença de Deus: um guia prático para a pregação expositiva. São José dos Campos, SP: FIEL, 2018, p. 45.

[60] MACARTHUR, 2018, p. 312

[61] MORAES, Jilton. Homilética: da pesquisa ao púlpito. 2.ed. São Paulo: Vida, 2007, p.111-112

[62] MORAES, 2007, p.111-112.

Mário Rubens
Últimos posts por Mário Rubens (exibir todos)

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários