A resposta a essa pergunta depende da aceitação da historicidade ou não da criação e queda do homem. Há uma corrente de pesquisadores que coloca tudo na conta da interpretação não literal, mitológica ou simbólica, contudo, esta não é a única forma de se considerar esta narrativa.


Para se fazer uma interpretação histórica e literal do texto é necessário, portanto, que se leve em conta o gênero literário em que esta narrativa foi escrita. Muitos estudiosos advogam que o acesso às informações sobre a criação remontam à tradição oral que preservou a história, porém, Js 24.2,14 deixa claro que o verdadeiro conhecimento de Deus havia se perdido em idolatria e corrupções históricas, de modo que se houvesse alguma narrativa oral sobre esse assunto, há muito havia se deteriorado.


Ainda assim este texto pode ser caracterizado como histórico, todavia, não da mesma forma que Reis, Samuel e Crônicas, razão pela qual é comum alguns teólogos defenderem que nem tudo que nele foi narrado é literal, que a queda, a serpente e a árvore, por exemplo, são simbólicas, sendo literais apenas os efeitos dessas figuras. No entanto, uma interpretação fidedigna desse acontecimento precisa levar em conta a literalidade e a realidade dos fatos conforme podemos ver a partir dos seguintes argumentos:


1. Embora exista uma tradição oral que, em parte, foi responsável por preservar muitos fatos reais nas histórias dos povos antigos, nenhuma delas consegue ser fiel ao acontecimento original por muitas gerações. Nesse caso, é mais salutar aceitar que a fidelidade aos acontecimentos narrados nesse texto partiu de uma inspiração particular ao autor;


2. Mesmo tendo muitos antropomorfismos presentes no texto, isso não o desabilita de ser interpretado literalmente, porquanto, os antropomorfismos estão presentes não somente aqui, mas na continuidade do texto inspirado, onde não se questiona a veracidade dos acontecimentos (Ex 24.10);


3. Não se pode negar que alguns elementos da narrativa de Gn 3 tem um significado simbólico, como no caso das árvores do conhecimento do bem e do mal que foram reais, mas representaram respectivamente a possibilidade de ser tentado e a possibilidade da comunhão eterna. Portanto, observa-se que essas foram verdadeiras porém cumpriam o papel de simbolizar algo, argumento que se estende também à serpente que era real, estando ali para simbolizar a presença do mal no jardim;


4. Só é possível considerar o restante da Bíblia como literal e realmente inspirada levando-se em conta a literalidade da criação e queda, porquanto, os autores posteriores trataram esse acontecimento como literal e verossímil (Jo 8.44; 2 Co 11.3; Ap 12.9).


Conseguinte a essas observações, é indispensável que se leve em conta o fato de que esse episódio não se refere a uma simples cobra que resolveu falar, mas de um ser sob o domínio de Satanás que inclusive incorporou sua própria natureza para conduzir o homem ao pecado. Nessa perspectiva, muitos dizem que era uma serpente que foi dominada e inspirada por Satanás, outros dizem que Satanás tomou a forma de uma serpente conforme foi testemunhado posteriormente, mostrando sua capacidade de distorcer a criação (Ex 7.12).


No entanto, o que é possível ser assertivo é que mais do que isso, Satanás usou a própria origem do seu nome como meio para tentar o homem, conforme pode ser observado a partir dos próprios termos que encontramos no decorrer do AT. A ação maligna por trás da serpente pode ser vista na forma como ela usou estes termos em seu favor.


O termo usado em Gn 3 é “nahash” que pode ser traduzido por “bronze”, porém, o profeta Isaias usa a palavra “saraph” (traduzido por serafim) para se referir tanto aos serafins que rodeavam o trono de Deus (6.2) como figuradamente às serpentes voadoras em 14.29.
Essas referências do profeta à serpente remetem a sua origem à realidade celeste e mostra que ela entende dos assuntos que dizem respeito ao céu. Isso faz possível pensar que, embora o texto de Gn 3 não use o termo “serafim” para se referir à serpente, os textos posteriores que associam esta criatura a Satanás, mostram que somente um ser elevado como um serafim, poderia ter acesso ao céu e aos assuntos divinos (Zc 3.1,2 cf Ap 20.2).
A razão do autor de Gênesis não ter usado o mesmo termo que Isaias, está no fato de que ali Satanás se apresentou como alguém que roubava a atenção da mulher para si, levando-a obedecê-lo e fazendo com que Eva abrisse mão da fidelidade a Deus para lhe dar ouvidos. A astúcia desta criatura pode ser observada novamente mais à frente, quando o povo de Israel adorava Neustã, a serpente de bronze se aproveitando do nome “nahash” (2 Rs 18.4).
É importante lembrar que ao usar o termo “serafim” para se referir a cobras voadoras que tinham um veneno violento capaz de causar uma dor semelhante a queimadura, o autor inspirado está propositalmente associando a natureza maligna desse animal ao castigo inflingido ao povo (Nm 21.6) e figuradamente falando das consequências da desobediência (Is 14.29; 30.6).


Desta forma, concluo dizendo que a serpente presente no jardim do Éden era muito mais que uma simples criatura, se tratava de um ser que um dia fora elevado, porém, ao ser expulso do céu tomou para si a forma ou o corpo de um animal que representava bem o seu nome original (serafim) e astutamente enganou a mulher travestido de uma natureza própria desse animal (nahash), vindo a enganar muitos outros dali para frente, conforme a própria Bíblia testemunha (SL 58.4,5; Jr 8.17). Por isso quando a Bíblia fala de uma serpente que falava, não está se referindo a um ser mitológico ou figurado, mas de um ser elevado que usou de toda sagacidade para implantar a sua própria natureza no mundo, a saber, o pecado.

Otoniel Oliveira
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Rogean
1 ano atrás

Muito bom, excelente, que nosso Deus continue direcionando este servo dele.

Isabel
1 ano atrás

Muito bem. Esse é o meu Pastor usado por Deus.