Tudo que é visto na Bíblia tem como ponto de partida o que está relatado em Gênesis, especialmente nos primeiros 11 capítulos. Encontramos na narrativa de Gênesis os pilares de toda a teologia cristã e consequentemente de nossa fé através dos temas gerais apresentados: a revelação do reino de Deus cumprido definitivamente em Jesus (Mt 4.17); a criação do mundo; o governo de Deus sobre toda a criação, o chamado de Abraão e a promessa feita à sua descendência; e a pessoa de Deus como governante do mundo.

É sobre o governante que vamos falar pois não existe conhecimento mais excelente que o conhecimento de Deus, porquanto se não o conhecêssemos toda a nossa compreensão do mundo estaria comprometida, pois como criador tudo que existe emana de Deus, as coisas prováveis e as improváveis.

Na verdade, o próprio conhecimento do homem depende de Deus, mas é justamente este que faz ecoar a pergunta; como conhecer a Deus? Ou mais ainda, existe realmente um Deus a ser conhecido? Sim, existe, pois basta lembrar que antes do estabelecimento da monarquia em Israel, Deus já havia se revelado como rei e que sua realeza estava disponível para ser usufruída neste mundo.

Porém, é necessário que se diga que a Bíblia nunca tentou provar a existência de Deus, ela simplesmente parte do pressuposto de que Deus existe, pois, tentar provar a existência de algo que já existe, é absolutamente contraditório. Gênesis não tenta convencer o leitor que Deus existe, apenas afirma sua existência e que ele é autossuficiente, onipotente e eterno.

Tentar provar a existência de Deus seria como um pai provar ao filho que ele é real, ou seja, tentar convencer o filho sobre algo que é inato nesta relação. Mas mesmo que isto aconteça entre um pai e um filho, tentar provar a existência de Deus é mais drástico ainda, pois neste caso a referência é ao criador, à fonte que alimenta toda vida.

A Bíblia revela toda a insensatez do coração humano quando este se recusa a reconhecer a Deus, pois conforme o profeta Isaias disse, até “o boi conhece o seu possuidor, e o jumento o dono da sua manjedoura” (Is 1.3) mesmo sendo de forma instintiva, por isso devemos esperar mais ainda do homem inteligente e racional.

Entretanto, o distanciamento dessa verdade se deu consequentemente por conta do pecado que causou uma grave ruptura entre criador e criatura, vindo o homem a partir de então a perder a capacidade natural de obedecer a Deus, sendo necessário que Deus se revelasse a ele através das Escrituras.

Mas a pergunta que muitos fazem é; como conhecer a Deus? Abraham Kuyper, teólogo e Primeiro-Ministro da Holanda na virada do século XIX para o século XX, disse: “A tentativa de provar a existência de Deus ou é inútil ou é um fracasso”. É salutar, no entanto, que ao olharmos para a necessidade humana de conhecer a Deus, olhemos a partir do ponto de vista do autor bíblico que disse ser “necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe” (Hb 11.6).

O CONHECIMENTO SOBRE DEUS É INATO

O mais famoso ateu destes tempos Richards Dawkins, disse que Deus é apenas um delírio, o que arrancou aplausos no meio acadêmico, como se tivesse provado a inexistência de Deus, mas a exemplo dele muitos já fizeram essa declaração que depois de um breve tempo caíram no esquecimento, assim como a declaração dele e seu famoso livro também cairão pelo simples fato de que seus argumentos se mostram frágeis e inconsistentes quando contrastados com a verdade da revelação divina.

Ao contrário dele, quando o autor de Gn 1.1 diz que Deus criou o mundo sem questionar nada sobre sua pessoa, ele está revelando um conhecimento inato de Deus. Isto não significa naturalmente que todos têm o devido conhecimento divino, pois embora haja um sentido em que todos conhecem a Deus, inclusive o homem que não o obedece, ninguém o conhece plenamente.

Igualmente a Dawkins, em 1859, Charles Darwin lançou em Londres seu famoso livro, “A origem das espécies”, marcando a crença no naturalismo e no evolucionismo, mas como já foi dito, “se Darwin tivesse conhecido a microbiologia, ele não teria acreditado na evolução das espécies”, pois como se sabe hoje, a complexidade de uma simples folha é muito maior que uma cidade gigantesca, e isso jamais pode ser fruto de um acidente da natureza.

Esse pensamento segundo o que o apóstolo Paulo declara em Romanos 1.18-22 veio pelo pecado que trouxe um distanciamento abismal entre Deus e o homem, fazendo com que este viesse a perder sua capacidade de adorar e reconhecê-lo como salvador, embora até admita que se trata realmente do criador.

Este tipo de homem, costuma ter conclusões equivocadas, por isso precisa de uma nova revelação através da Bíblia e de uma nova visão espiritual para que seja regenerado, pois baseado somente em suas próprias conclusões, o homem não espiritual costuma limitar-se à própria ignorância do seu pecado conforme Paulo continua a demonstrar em seu argumento em Rm 1.23-25.

Portanto, o conhecimento inato por si só é incapaz de levar o homem a Deus, mas também não o exime de culpa, sendo, portanto, pela revelação especial conhecida através das Escrituras e cumprida em Cristo, que acontece a transformação de vida, capaz de reaproxima-lo do Criador.

Nestes termos, vê-se que o autor da narrativa do Gênesis olhava não somente de uma perspectiva natural ou histórica, mas ao se expressar confessando a Deus como criador, ele afirmava também sua fé e sua disposição em anunciar que somente neste se pode conhecer plenamente o sentido da vida.

Em outras palavras, logo na primeira declaração já temos a certeza de que Deus existe, porquanto, isto é afirmado tanto pelo testemunho da criação quanto pela revelação divina, a qual é inata no coração de todos mesmo que uns a rejeitem, contudo ao agirem assim estão negando a própria natureza.

Isto torna dispensável qualquer prova da existência de Deus, pois, por conta do testemunho interno do coração, é impossível negar sua presença, ainda que posteriormente isto venha a acontecer, todavia, toda negação de Deus é uma negação tardia alimentada pela distorção do conhecimento divino que leva o coração do homem para uma concepção puramente humanista do mundo e sua origem.

O CONHECIMENTO SOBRE DEUS É RACIONAL

O apóstolo Paulo criticou os judeus de seus dias dizendo que eles tinham zelo por Deus, porém, sem entendimento (Rm 10.2), algo muito semelhante ao que acontece atualmente, pois muitos até acreditam em Deus, todavia, não tem o conhecimento adequado dele, dando provas disso quando pensam que fé e razão não se coadunam em um mesmo entendimento a respeito de Deus.

Infelizmente o anti-intelectualismo se estabeleceu entre os cristãos de tal modo que para muitos, entender a Deus é preciso rejeitar a razão, bastando ter fé para que tudo se ajeite, no entanto, este é um erro grave que está sendo cometido, porquanto, o conhecimento de Deus exige tanto fé como a nossa capacidade racional.

É certo que para se conhecer a Deus é preciso antes de tudo ter fé, fé de que ele existe (Hb 11.6), que pode ser conhecido e que se revela ao homem. No entanto só é possível chegar a esta conclusão a partir de um raciocínio lógico e consequentemente racional. Dizer como uma música atual, que “do crente ao ateu, ninguém explica Deus” é rejeitar a capacidade que ele mesmo deu ao homem de conhece-lo adequadamente a partir da revelação bíblica.

Diferente dessa música é interessante notar que o entendimento de Deus vai sendo estabelecido a partir de um ponto de partida lógico que vai sendo montado a pelo conhecimento racional. Todavia, qualquer espécie de conhecimento exige fé, afinal a nossa fé não vem a partir do conhecimento adquirido, mas o conhecimento sempre é pressuposto pela fé, ou seja, só buscamos conhecer aquilo que acreditamos.

Portanto, ao contrário do senso comum, o que o autor de Gênesis nos faz é um convite para conhecermos a Deus a partir de uma relação entre fé e razão, demonstrando que ambas sempre andaram de mãos dadas e nunca uma contra a outra, pois como disse o eminente teólogo anglicano John Stott, rejeitar a razão no conhecimento de Deus é cair em uma espécie de “miséria da mente vazia que ameaça o cristianismo”.

Não há, portanto, auto exclusão, mas ambas devem redundar em obediência a Jesus, conforme ensinou Paulo nos dias do Novo Testamento quando disse de uma forma muito contundente que todo conhecimento deve redundar em obediência a Cristo (2 Co 10.4-5).

Compreendendo assim, podemos pensar que a ideia de Deus está presente na consciência humana de tal modo que é impossível a esta não manifestar qualquer indicação da realidade divina, mesmo que posteriormente venha a refutá-la por conta do domínio do pecado em sua vida.

Sabe-se que em todas as épocas e todos os lugares onde há vida humana, existe manifestação religiosa, provando deste modo que a razão acompanha a fé por todos os lugares, tornando a primeira um elemento primordial no processo de saber que Deus existe e que está presente em nossas vidas.

Foi isto o que aconteceu com o autor do primeiro livro da Bíblia, quando através de um processo racional e lógico entendeu que tudo que havia sido criado, precisava vir de uma fonte inteligente chamada Deus, expressando deste modo sua fé quando declarou de forma absoluta que Deus é o criador de todas as coisas.

O CONHECIMENTO SOBRE DEUS É NATURAL

O conhecimento de Deus vem pelo desvendamento dado pelo Espírito Santo através da revelação expressa na Bíblia Sagrada, embora isto não signifique que temos acesso a todo conhecimento de Deus. Nem todo conhecimento divino foi revelado ao homem nem poderia ser, portanto, nem tudo pode ser compreendido por conta da própria limitação humana.

Mesmo assim, ainda que nossa perspectiva futura seja a eternidade, somos também seres naturais, portanto presos ao tempo e limitados ao espaço. Não nos cabe saber além do que está revelado, entretanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre os homens, segundo garante a própria Bíblia (Rm 1.19).

Não temos explicação para todas as coisas pois somos incapazes de compreender todas as coisas, nem Deus exige que compreendamos todas as coisas, ele tão somente nos ensina a ouvir e guardar no coração o que é apropriado, conforme o exemplo de João na ilha de Patmos que mesmo tendo recebido uma revelação especial, tratou de interpretá-la racionalmente (Ap. 1.3).

Esta atitude do apóstolo ensina que o conhecimento de Deus não exige uma digressão no mundo das divagações supranaturais, mas tendo como testemunha a própria criação inicial que o autor de Gênesis se refere, podemos conhecer a Deus, seja através da revelação geral conforme declarou o salmista de forma inspirada e poética em Salmos 19.1-4 ou pela sua revelação especial nas Escrituras Sagradas, ambas, um processo natural de revelação.

Embora a revelação geral não seja suficiente para a salvação, nenhum homem é por isso isento de culpa (Rm 1.20), porquanto Deus se fez conhecer à humanidade por estes meios, os quais tomam como base a própria capacidade do homem de reconhecer a sua existência e a partir desta realidade, dispor-se para uma relação direta com ele por um meio absolutamente natural.

Deus, portanto, tem se manifestado de forma natural no mundo, bem diferente do que muitos cristãos pensam quando buscam experiências sobrenaturais como se fosse uma espécie de complemento para o conhecimento que pode ser adquirido pela Bíblia, criando assim uma contradição ao que Deus já falou através dos escritores inspirados.

O próprio testemunho da humanidade mostra o conhecimento natural de Deus, pois como dizia Epimênides, poeta grego do século VII antes de Cristo, “em Deus nos movemos e existimos” e Arato, também poeta grego do século IV, “também somos descendência dele”, citados por Paulo em sua defesa da existência de Deus diante dos atenienses (At 17.28).

Diferente do testemunho dos antepassados, foi a partir do movimento iluminista que houve a transformação do pensamento, e de eventos como a revolução francesa, que a rejeição do conhecimento de Deus passou a ser popularizada, tornando-se comum na sociedade hodierna, contudo, apesar de todas essas transformações, é impossível apagar a realidade de que Deus está presente no mundo.

Um exemplo da história deixa isso muito claro pois como se sabe de um discreto acontecimento no auge da revolução francesa quando um emissário do governo chegou a uma vila e abordou um cristão dizendo que tinha vindo com a missão de rasgar sua Bíblia, queimar o seu templo e tirar de sua mente “essa ideia tola de Deus”, no que foi retrucado com a seguinte resposta: “o senhor pode queimar o meu templo e rasgar a minha Bíblia, mas, antes de o senhor apagar de minha mente a ideia de Deus, terá primeiro que apagar as estrelas do firmamento, porque, enquanto elas brilharem, eu saberei que Deus é o criador”.

Embora não seja propósito da Bíblia, provar a existência de Deus ao homem, este por sua imanência se revela, seja através da criação, seja através de seu Filho encarnado. Não porque ele sofra de alguma necessidade de revelar-se, mas por amor ao homem, parte em busca deste moribundo, o que nos traz valiosas implicações.

O homem natural sujeito ao pecado anda a tatear como um cego e ainda que Deus esteja ao seu lado ele é incapaz de reconhece-lo se o próprio Deus não resgata-lo da sua condição decaída. Por isso a primeira declaração da Bíblia mostra que o Deus eterno, o criador e o sustentador do universo, é o mesmo que se revela ao homem porque sabe que este é incapaz de encontra-lo por sua própria conta e mesmo que os ímpios o rejeitem, o entendimento inato da humanidade, a sua capacidade racional e o conhecimento natural, dão provas contundentes de que Deus existe.

Somos cientes de nossa limitação, porém capazes de ter nossas próprias convicções a respeito de Deus, se estamos ignorando sua inegável presença, ou apenas tentando provar que Deus existe, este não é um esforço que nem a Bíblia faz, o que precisamos mesmo é nos submeter ao seu governo porquanto temos intrinsecamente nossas vidas marcadas por ele pois é impossível negar sua presença e seu poder no mundo.

Apenas saber que Deus existe, não basta para que tenhamos uma vida transformada, precisamos nos entregar a Ele independente da ausência de provas de sua existência, afinal não somos movidos por provas, somos movidos por fé e pela compreensão de sua Palavra inspirada. Que o nosso sentimento seja o mesmo do autor de Gênesis que teve experiências indescritíveis com Deus, mas que, entretanto, pautou sua relação com ele na fé e na obediência.

A partir desta relação e deste exemplo, resta levantar nossos olhos aos céus e simplesmente agradecermos por sermos tão abençoados com tão grande revelação, a qual nos permite dizer, de fato Deus existe e que o conhecemos, toda honra e toda glória sejam assim, prestadas a ele.

Otoniel Oliveira
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