Lindomar M. da Silva[1]

RESUMO

O presente trabalho trata da importância da fé na luta contra a ansiedade. Analisa a relação entre incredulidade e ansiedade e a carência de se fortalecer a confiança na soberania de Deus através do contato diário com sua Palavra. Constata-se que o principal problema de quem sofre com ansiedade é a incredulidade. O artigo demonstra também a importância de se compreender a ansiedade conforme os escritores bíblicos usam em seus livros. Defende-se a necessidade do cristão combater as diversas formas que a ansiedade assume em sua vida, tendo como base as promessas específicas da Bíblia Sagrada.

Palavras-chave: ansiedade; incredulidade; fé

Introdução

O homem moderno é um ser inquieto e vive constantemente sob pressão. Quer segurança, mas também quer liberdade. Afirma-se como ser autônomo, mas é escravo. Deseja reinventar-se, mas não sabe que plano piloto seguir. Deseja relacionar-se, mas sem as amarras do compromisso. O ambiente em que ele vive é caótico e ameaçador. Violência, desemprego, instabilidade na economia, crise na família, crise na política, polarizações religiosas, guerras ideológicas, pandemias, relativizações dos valores tradicionais, incertezas quanto ao futuro, essas, e os outras demandas norteiam a vida do homem na contemporaneidade. Diante de tal cenário, as pessoas estão cada vez mais temerosas, cheias de incertezas, estressadas, inseguras e ansiosas.

O cristão, de modo semelhante, vive inserido nesse contexto de constante mudanças. Mas qual deve ser a postura do dele diante dos desafios dos pós modernidade? Como deve reagir? Como o cristão pode testemunhar sobre sua fé em Deus, diante de tão grandes desafios? Ver-se que muitos cristãos têm reagido da mesma maneira que as pessoas que não tem esperança. Vivem ansiosos e em constante agitação dentro deles. Cheios de temor e de ansiedade. Diante disso é possível o cristão vencer a ansiedade?   A ansiedade pode ser vencida, na vida do cristão, à medida em que ele muda o foco dos seus pensamentos e desejos, passando a confiar no Senhor com todo o seu coração.

Por que falar sobre ansiedade? Porque percebe-se que muitos cristãos, de vários níveis de maturidade espiritual, lutam contra a ansiedade em algum momento de suas vidas. Observa-se também que a igreja precisa preparar melhor os cristãos para lidar com esse problema. Por que a maioria dos cristãos, inclusive líderes, estão tratando a ansiedade como um problema orgânico exclusivamente. Ao serem procurados, muitos líderes, já aconselham seus liderados a procurarem ajuda de um profissional da área, transferindo para terceiros uma responsabilidade que é deles e da igreja: a de conduzir os cristãos à Palavra, a fim terem seus pensamentos e desejos reorientados para Deus e seu Reino. Assim sendo o que se propõe é um retorno urgente a Palavra de Deus no tratamento da Ansiedade.

É salutar reeducar a igreja e reorientar os cristãos a buscarem repostas na Bíblia Sagrada, convencendo-os que a ansiedade não é um problema orgânico, mas um problema espiritual. Que a causa da ansiedade segundo a Bíblia, é desconfiança no caráter de Deus, é alimentar-se de dúvidas sobre suas promessas, e suspeitas sobre a sua providência; em outras palavras, ansiedade resulta do pecado da incredulidade.  Defende-se, portanto que, para o cristão vencer a ansiedade ele deve examinar a relação entre a incredulidade e ansiedade em seu coração, e assim realinhar seus pensamentos e desejos aos interesses e vontade de Deus. Para tanto, o cristão deve alimentar-se diariamente com as Promessas do Evangelho, saturando sua mente com textos e promessas especificas para cada ataque de ansiedade e temor específicos.

  1. O que é ansiedade?

Falar sobre ansiedade já virou senso comum. Ouve-se com muita frequência em roda de conversas, as pessoas falando que estão ansiosas, com isso ou com aquilo. No entanto, definir e entender como a ansiedade funciona é deveras complexo. Ansiedade é uma emoção, todavia, é mais que um sentimento. Ela se manifesta com frequência com uma reação física, mas é mais do que isso.

Atualmente há muitas vozes discutindo o significado de ansiedade. Alguns definem ansiedade como um problema orgânico. Outros definem ansiedade como apenas uma emoção. E outros dizem que a ansiedade é um transtorno psicológico. Desta forma dependendo de como se conceitua ansiedade determinará a solução para a mesma. Define-se a ansiedade como um problema meramente orgânico, o possível tratamento será por meio de ansiolíticos e afins. Se é vista apenas como uma emoção neutra, sem nenhuma implicação moral, não se tratará de forma adequada.  Cada conceito implicará diretamente na forma do tratamento. Quem diz o que é, determinará a cura. Quem define controla. Deve-se atentar para o fato de que existe uma guerra semântica nos dias hodiernos, ideólogos tem se apropriado de conceitos e palavras a fim de resignificá-los com o propósito de ludibriar incautos, e transformar mentalidades. O ciclo dessa guerra semântica começa na academia, com uma autoridade no assunto redefinindo um termo, depois é distribuído nos pequenos nichos de pseudo intelectuais, depois é reproduzido na cultura, os artistas e influenciadores sociais compram a ideia, e finalmente chega as massas causando um grande um impacto no consciente coletivo.

Não se deve subestimar as consequências nefastas de não se estabelecer logo de início o conceito legítimo de ansiedade segundo as Escrituras Sagradas, pois é dela que se deve tirar o conceito para se lidar com a ansiedade segundo uma cosmovisão Bíblica. À vista disso, o que é exatamente ansiedade?

A palavra “ansiedade” tem origens respeitáveis. Como seus cognatos europeus angoisse (francês), Angst (alemão), angoscia (italiano) e angustia (espanhol), ela se origina da raiz grega antiga angh, que pode ser encontrada em palavras do grego antigo que significam “apertar forte”, “estrangular”, “estar oprimido pelo sofrimento”, assim como “carga”, “fardo” e “problema”.

Os escritores do Novo Testamento empregam duas diferentes, mas relacionadas palavras para referir-se à experiência do que se denomina por ansiedade. Eles combinam o substantivo merimna, que geralmente é traduzido como “cuidado” com o verbo merizo, que significa desenhar em direções diferentes ou distrair. Estar ansioso, então, significa ter um cuidado distraído – ter nossas mentes e corações divididos entre dois mundos. Nós vemos isso no aviso de Jesus sobre espinhos sufocando a Palavra de Deus, que se destina a produzir fé. Ele identifica esses espinhos como “Os cuidados do mundo” (Marcos 4:19) ou “os cuidados e riquezas e prazeres da vida” (Lucas 8:14). Cuidados ansiosos são tipicamente ligados a nossas vidas terrenas e geralmente são temporais, não eternos. O verbo merizo = distrair, dividir, traçar direções diferente – expressa um forte sentimento por algo ou alguém, muitas vezes a ponto de ser sobrecarregado. Embora essa possa ser uma preocupação “positiva”, na maioria dos casos do NT, ela se refere a uma preocupação ansiosa, baseada na apreensão sobre possíveis perigos ou infortúnios, e, portanto, significa estar preocupado, ansioso, apreensivo, estar indevidamente preocupado, sobrecarregado com cuidados ansiosos ou sobrecarregado com muitos cuidados e, em termos simples, com preocupação.

Segundo Piper (2009) “A raiz da ansiedade é a desconfiança em tudo que Deus prometeu nos dar em Jesus”[2].

O que chama a atenção nessa definição é palavra desconfiança. A pessoa ansiosa, é por definição, uma pessoa desconfiada. Requer-se que entendamos a palavra desconfiança no sentido mais abrangente. É interessante observar-se que as Sagradas Escrituras repetem com constância a importância de desconfiar da bondade do homem. De que não se deve colocar a confiança nas riquezas ou no dinheiro. Àqueles que iam a guerra, o autor inspirado, admoestava, que eles não deviam colocar sua confiança na força do cavalo ou na habilidade do guerreiro. Os cidadãos não deviam pôr a confiança na política ou nos políticos. Ademais os agricultores não deviam depositar sua confiança nos elementos da natureza. Em outras palavras, para que o homem se resguardado de decepção, frustação e preocupação, ele deve manter-se vigilante para não tratar como deus aquilo que não é. Assim sendo, ansiedade é confiança desorientada. A pessoa ansiosa é aquela que eleva-se a categoria de deus ou que põe a confiança em um elemento da natureza em busca de proteção, suprimento e controle. A pessoa ansiosa imagina um futuro onde a graça e o amor de Deus estão ausentes. Ansiedade é incredulidade. É enxergar-se num futuro sem Deus.  Isto posto, é crucial verificar-se a relação entre ansiedade e incredulidade com acuidade e logicidade

  1. Ansiedade e incredulidade

No paraíso, os primeiros pais, não creram que as Palavras do Senhor eram a verdade. Satanás colocou em dúvida o que Deus dissera ao casal. “Toda vez que pecamos é por acreditarmos em Satanás, não em Deus”.[3] Agindo sorrateiramente ele convenceu o casal que Deus estava impedindo-os de uma felicidade, e de um conhecimento que eles não possuíam. Eles não creram que um fruto tão atraente aos olhos fosse tão venenoso e mortal. O tentador lançou dúvidas sobre as reais motivações do Criador ao proibi-los de comerem da árvore do conhecimento do bem e do mal, e assim persuadiu Adão e Eva de que o Senhor era um enganador, desta forma Satanás se passou de verdadeiro e Deus de mentiroso. A queda se deu porque o arqui-inimigo convenceu os representantes da raça humana, a crerem em sua mentira e a duvidarem das palavras de Deus. A incredulidade levou o casal, a duvidar, e por conseguinte a desobedecer ao Criador. A miséria que assola o mundo é resultado da incredulidade no coração do homem no que concerne ao caráter e ao governo de Deus.

Nós vivemos em mundo caído[4], paradoxalmente há no mundo, vestígios do paraíso perdido; mesmo após a queda o salmista afirmou: “Os céus declaram a glória de Deus, e os firmamento anuncia as obras de suas mãos”[5] . Em outra passagem Davi se expressou assim: “Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda terra é o teu nome![6]”. Todavia a terra tornou-se maldita pela desobediência de Adão e Eva, e agora o homem vive em ambiente marcado pela dor, pela fadiga, e repleto de acontecimentos fatídicos que contribuem para que homem suspeite da existência e da bondade de Deus, peque e sofra de ansiedade.

A epítome da ansiedade é a incredulidade. Assim como a fonte precede o rio, e como a flor precede o fruto, a incredulidade precede a ansiedade. O pecado da incredulidade é como uma corrente de vários elos. Uma roda com muitas engrenagens. A incredulidade está prenhe de descontentamento. O mau humor é filho da incredulidade. A raiz da amargura é a incredulidade. A incredulidade coloca em suspensão a providência divina. O incrédulo ver a história como um trem desgovernado; para ele o amanhã está prenhe de caos e desordem.

A incredulidade levar o homem a vislumbrar o futuro com os olhos de um ateu. O Bispo Ryle afirma:

A incredulidade fez com que Eva comesse do fruto proibido – ela duvidou da veracidade da palavra de Deus: “certamente morrerás”. A incredulidade fez com que o mundo antigo rejeitasse os avisos de Noé, de modo que pereceu em pecado. A Incredulidade manteve o povo de Israel no deserto – ela foi a grade que lhes barrou a entrada na terra prometida. A incredulidade fez com que os Judeus crucificassem o Senhor da Glória – eles não creram na voz de Moisés e dos profetas, embora eles as lesses todos os dias. E a incredulidade é o pecado predominante no coração humano até agora: a falta de fé nas promessas de Deus; falta de fé nas ameaças de Deus; falta de fé na nossa própria pecaminosidade; falta de fé no perigo que corremos; falta de fé em tudo o que vai de encontro ao orgulho e ao mundanismo dos nossos próprios corações.[7]

O autor inspirado confirma o fato de que a incredulidade antecede o pecado da desconfiança em Deus: “Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo”[8]

Claramente se percebe, portanto, que a ansiedade resulta de um coração incrédulo. O cristão ansioso vive em dúvida sobre a governo de Deus sobre ele mesmo e sobre as suas circunstâncias. Teme o amanhã porque desconfia do cuidado paternal de Deus. Ver-se como um órfão, abandonado, à mercê da própria sorte. O crente ansioso pensa que pode controlar todas as variáveis e contingências da vida se preocupando em demasia e tentando neutralizar todos os riscos que a vida apresenta. A ansiedade transparece irracionalidade e futilidade. Pois a ansiedade não altera a realidade do mesmo modo quer ficar em frente a espelho ordenando o seu próprio crescimento. A ansiedade é como uma planta parasitária instalada na árvore da fé do cristão, matando seu vigor espiritual e enfraquecendo sua confiança em Deus.

Ansiedade sempre traz em seu bojo outros pecados. Por exemplo, se o cristão fica ansioso com finanças, isso pode levar o cristão a cobiça, a ganância, a acumulação de bens e até mesmo ao roubo. É isso que ansiedade sobre as finanças pode causar. A ansiedade pelo sucesso ou o êxito em uma determinada tarefa pode levar a pessoa ao roubo, a falsificação e ao engano. A ansiedade no casamento pode desencadear comportamento de ciúmes, conflitos e insegurança. A ansiedade sobre os relacionamentos pode fazer com que a pessoa que esteja lutando contra a ansiedade pareça indiferente e retraída. Observa-se, portanto, que além de ser um pecado contra Deus, por se colocar em dúvida seu caráter e governo, ansiedade faz do cristão alguém de difícil convivência; afetando casamento, a comunhão com os irmãos na igreja, e o seu testemunho. Diante de tal realidade, por que mais e mais cristãos estão procurando tratar a ansiedade como doença?  Uma das primeiras causas, é a intromissão da cultura de medicação na vida da igreja. Uma outra causa, é a fé de muitos cristãos no cientificismo, levando muitos a abandonar a correta visão bíblica sobre a ansiedade, e procurarem solução nos remédios para seus problemas espirituais. O que Allen Frances pontua sobre o impacto da medicação na vida da sociedade, se aplica diretamente na vida de muitos cristãos:

As drogas psiquiátricas são hoje a maior fonte de renda dos fabricantes – 2011, foram 18 bilhões de dólares em antipsicóticos (surpreendentes 6% de todas as vendas de medicamentos), 11 bilhões em antidepressivos e quase 8 bilhões em remédios para TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade. O gasto com antipsicóticos triplicou de 1988 a 2008.[9]

Ainda pode-se acrescentar uma terceira causa, o enfraquecimento da confiança do cristão na suficiência das Sagradas Escrituras.  Assim sendo, cresce o número de cristãos que não veem mais a ansiedade como resultado da ruptura e o do abandono de Deus, mas como um mero problema psicológico ou uma doença. Isto posto, o conselheiro cristão tem diante de si, um enorme desafio, que é o de lidar com cristãos de mente psicologizadas e que olham para o conselheiro cristão como alguém incapaz de responder suas perguntas e de ajuda-los a superar seus momentos de ansiedade.

  1. Ansiedade e fé

Qual antídoto contra a ansiedade? Se a raiz da ansiedade é a incredulidade, como então se combate a ansiedade? Já que biblicamente a ansiedade não é uma doença, como tratá-la? Se alguém está lutando contra ansiedade, o que se deve recomendar a essa pessoa?  Obviamente as respostas as essas perguntas destoam do pensamento secularista e cientificista. Augusto Cury acredita que o pensar demais é que leva a pessoa a viver ansiosa:

“Nada coloca tanto combustível no mal do século, na ansiedade gerada pela SPA (Síndrome do Pensamento Acelerado), do que sofrer pelo que ainda não aconteceu.”[10]

Para Cury, logicamente a solução para ansiedade é desacelerar o pensamento. É pensar de menos. Interessante que a Bíblia não diz que a solução para ansiedade se encontra no pensar menos, ou em desacelerar a mente, mas no pensar nas coisas certas. Paulo escrevendo aos Filipenses afirma: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”[11].  Diante de mundo em constante mudança e convulsão, o apóstolo inspirado ordena, ao cristão ansioso, não desacelerar o pensamento mais em focar nas coisas certas, nas coisas excelentes, tais como a graça de Deus, seu amor e sua misericórdia. No céu. Na esperança de ver a Cristo, e de estar com Ele eternamente. Pensar nas oscilações do mercado financeiro, se deter na crise política, ficar pensando na falta de segurança no bairro, refletir no que pode dar errado, certamente fomentará medo e ansiedade em qualquer pessoa. À vista disso, a resposta de Cury para o problema da ansiedade não ajudará a pessoa a vencer a ansiedade, talvez, agrave ainda mais.

Para Freud o problema da ansiedade se dá pela repressão de desejos:

“Crucial para a teoria de Freud sobre a ansiedade é o que ele chamou de id, um selvagem e primitivo repositório psíquico de desejos instintivos. A tarefa de gerenciar e controlar esses desejos, que estão enterrados no fundo do nosso inconsciente, cabe a uma segunda parte da psique freudiana, o ego. Quando o ego não é capaz de desempenhar esse papel nada invejável, a consequência é a ansiedade neurótica, e o desejo é, assim, reprimido”.[12]

De acordo com Freeman, Freud atribua a ansiedade a incapacidade do ego de gerir os desejos do subconsciente. O que se ver aqui é mais uma teoria que é um contraponto ao que as Escrituras Sagradas estabelecem como causa e como solução para o problema da ansiedade. Pois em nenhum lugar a Bíblia propõe que a forma de um cristão se tratar da ansiedade é dá vasão aos seus desejos reprimidos. Ao contrário, o que Bíblia ensina é que se deve mortificar os desejos lascivos, e dizer não aos desejos contrários à sua Palavra.  Com isso, não se defende aqui uma espécie de estoicismo cristão, como se fosse possível viver, sem desejo, prazer e felicidade. A Bíblia não nega o força do desejo humano, nem sua busca por prazer e felicidade, mas redireciona e reordena essa busca para Deus. Pois é possível que ansiedade seja fruto de desejo desordenado pelos tesouros da terra.  O que se pretende agora é demostrar como o cristão pode superar a ansiedade como as armas certas.

Visto que a raiz da ansiedade é a incredulidade, o instrumento para matar essa raiz é a fé. O escritor bíblico afirmou, que “sem fé é impossível agradar a Deus”.[13] A fé é a rainha de todas as graças, é pela fé que recebemos todos os benefícios da redenção realizada por Cristo na cruz. Não é fé na fé. Não é fé no destino, mas confiança que o Deus do ontem é o Deus do futuro. Não é fé em amuletos e objetos benzidos. É fé no que Deus é para seus filhos em Cristo Jesus. Aliás, a grande dádiva do evangelho é o próprio Deus. Crer que Deus se deleita em fazer o bem, é o fundamento da segurança para aqueles que lutam contra ansiedade. É pela fé que resistimos as tentações de Satanás. É pela fé que o cristão apreende as promessas para crescer na dependência de Deus. É pela fé que as dúvidas são derrotadas. Quando a fé se enfraquece os problemas se agigantam gerando no coração do cristão vacilante, dúvidas sobre o amor e cuidado de Deus.

A primeira coisa que se deve ter em mente ao falar sobre fé, é que a fé é dom de Deus. A fé é uma dádiva do Senhor. É Ele que a preserva, é Ele que a faz crescer, e é Ele que é o consumador da nossa fé. E quem deseja ter fé deve pedir a Deus. E quem a tem deve reconhecer com gratidão de quem a recebeu, e em atitude de oração pedir que Deus a faça crescer. A segunda coisa que se precisa mencionar aqui, sobre a fé, é que objeto natural da fé são as promessas de Deus. Isso é particularmente verdadeiro pra tudo que Deus revelou e prometeu no evangelho, que contém todas as promessas pertinente a reconciliação, perdão de pecados, paz, santidade e salvação. Tudo isso se encontra em ambos os testamentos e é oferecido e prometido aos crentes: “Crede no evangelho”.[14] “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo”.[15]

O autor Daniel Fuller ao falar sobre a importância da fé na luta contra ansiedade diz o seguinte:

É útil perceber que o elemento-chave na vida cristã é a fé: Satanás, nosso adversário, procura destruir a nossa fé, e nosso compromisso como cristãos é combater “o bom combate da fé” (1 Tm 6.12). Sabendo-se que objeto natural da fé são as promessas de Deus, devemos observar especialmente aquelas passagens da Bíblia em que esses compromissos foram feitos, e também as ameaças de sofrimento que iremos experimentar se não acreditarmos”[16].

O que essa citação ressalta é a importância da Palavra de Deus, especificamente as promessas, para o fortalecimento da confiança no que Deus prometeu. O que Ele fez no passado servir para firmar a fé no que Ele cumprirá no futuro. Essas promessas deve ser objeto de meditação, estudo e memorização. Já foi provado que a memorização da Palavra de Deus é de suma importância para se matar a incredulidade e fortalecer a fé. Focar nos compromissos que Deus fez com seu povo no desenrolar da história da redenção é crucial para tirar o cristão da ansiedade.  As promessas de Deus têm o poder de pacificar a consciência culpada, acalmar o coração inquieto, e conceder força aos que se encontram abatidos. Sem a Palavra de Deus a fé é vencida pela dúvida, a incredulidade assume o controle do coração e o cristão ansioso perde o foco das coisas eternas.

Ademais, existe algo que é uma luta de fé diária na vida de todo cristão verdadeiro. Manter-se crendo no amor de Deus independe das circunstâncias. Uma das razões porque muitos cristãos vivem ansiosos, é por duvidarem do amor de Deus por eles. Romanos 8.32, Paulo apresenta um texto poderoso para demonstrar a segurança do amor de Deus por aqueles que estão em Cristo Jesus. Ele argumenta partindo do maior para o menor. Visto que Deus não poupou seu próprio Filho, Ele não negará as demais coisas. Posto que o que Ele tinha de mais precioso Ele já entregou para redimir os pecadores, não há porque o cristão viver desconfiando do cuidado e do amor de Deus, haja visto que Ele já provou seu amor gracioso ao entregar seu único Filho. Seria possível Deus após entregar seu Filho gratuitamente por amor, e em seguida negar algum bem espiritual ou temporal aqueles que lhe pertencem? Como Ele não os vestiria, os protegeria, os alimentaria, os libertaria? Como Ele não faria tudo para o bem deles?  A maior dádiva já foi entregue, portanto, as demais coisas não serão negadas. A certeza desse amor é melhor que ansiolítico. Nada pode demover a mão de Deus de sob aquele que Ele chamou eficazmente. Desse modo, o amor de Cristo deve ser objeto de meditação constante, por aqueles que se encontram temendo o futuro e as circunstâncias difíceis da vida.

Aquele que é tentado a desconfiar do amor soberano de Deus, deve a manejar a Espada do Espírito em seu favor. A fé em Deus deve conduzir o cristão ansioso a Palavra para as batalhas diárias contra a incredulidade. Pois várias coisas acontecem durante o dia que pode desencadear a ansiedade e o temor do amanhã: o pronunciamento de um governante, a previsão pessimista de que mais pessoas perderão seus empregos, o aumento de casos de pessoas com câncer, o crescimento da violência no bairro em que mora, a  realização de uma cirurgia, e a lista continua. Fora essas coisas externas, existem fatores internos que podem reforçar ainda mais o medo e ansiedade no cristão débil. Por exemplo, falsa culpa, o temor do homem, interpretação equivocada da realidade, a pressão interna para um honrar algum compromisso, procrastinação, perfeccionismo, e outros estados de espirito. Todas essas situações e estados de espírito devem conduzir o ansioso a imediatamente a Palavra para ter sua fé fortalecida e a incredulidade combatida.

Quando a ansiedade for pelo bem-estar, preocupação por alimento, vestimentas e afins o cristão deve agarrar-se com fé a promessa de Mateus: “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que aves?”[17]

Quando o cristão estiver ansioso com a sua segurança e com receio da violência, ele deve combater a incredulidade com a promessa de Hebreus: “Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?”[18]

Quando a ansiedade bater em relação a uma decisão combata a ansiedade com a promessa do salmo: “Eu o instruirei e o ensinarei no caminho que você deve seguir; eu o aconselharei e cuidarei de você”[19]

Quando o cristão ficar ansioso a respeito de doenças, deve enfrentar a incredulidade com a promessa: “O justo passa por muitas adversidades, mas o Senhor o livra de todas”[20]

Quando ficar ansioso por sentir-se incapaz de realizar uma tarefa, um trabalho, o cristão deve combater a incredulidade com a promessa: “Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo”[21]

Quando a ansiedade bater sob o pesado fardo de uma tribulação, o cristão deve militar contra a incredulidade reafirmando sua confiança com a promessa: “Porque nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação”[22]

Observa-se com certa constância que muitos cristãos ao se depararem com situações que pode levar a ansiedade, permanecem passivos. Ao invés de atacar a ansiedade com a Palavra de Deus, permanecem escutando seus próprios pensamentos equivocados; interpretando de forma incrédula a realidade, afundam-se em pessimismo, ansiedade e medo.  Ao voltar-se para o velho Livro, o cristão ataca a incredulidade, e mostra ao mundo de onde vem a sua força, e onde ele repousa quando pressionado, isto é, nos braços do Pai nosso.

Conclusão

O presente artigo destinou-se a demonstrar a relação entre ansiedade e incredulidade e como o cristão triunfa sobre a ansiedade, ao fortalecer sua fé em Deus através do estudo diligente da Palavra de Deus. Ao compreender essa relação, o cristão será capaz de atacar a raiz da ansiedade, direcionando-o para as promessas do evangelho, lhe capacitando a lidar com suas dúvidas e temores, com a certeza de que Deus continua sobre o seu trono e de lá comanda o universo e sua vida, conforme lhe apraz.  Ficou também constatado que ao contrário do que ensina a psicologia humanista, ansiedade não é um problema orgânico, mas um problema espiritual. Que não se deve tratar ansiedade com medicação, mas com estudo sério e persistente da Palavra de Deus; ficou provado que na medida em que o cristão tem seus desejos e pensamentos reorientados a Deus e ao seu reino, ele vai superar as inquietações e perturbações do seu coração.

Se estabeleceu que é necessário descobrir que áreas específicas podem desencadear ansiedade, e ataca-las com textos específicos das Sagradas Escrituras. Dessa forma, o cristão ganha a perspectiva correta sobre sua circunstância, sobre o seu próprio coração e sobre o caráter e governo de Deus. Qualificando-o assim para vencer as batalhas contra a ansiedade, triunfando sobre a incredulidade, com a força que Deus provê através de Seu Espírito infundido graça sustentadora no coração de seus filhos enquanto peregrinos nesse mundo.

ANXIETY AND FAITH: Strengthening Trust in God

The present work deals with the importance of faith in the fight against anxiety. It analyzes the relationship between unbelief and anxiety and the lack of  confidence in God’s sovereignty through daily contact with His Word. It appears that the main problem of those who suffer with anxiety is disbelief. The article also demonstrates the importance of understanding anxiety as biblical writers use in their books. It is argued that the Christian needs to combat the various forms that anxiety takes in his life, based on the specific promises of the Holy Bible.

Keywords: Anxiety; unbelief; faith

Referências

Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2.ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008.

Piper, John. Graça Futura. São Paulo: Shedd Publicações, 2009.

MacArthur Jr. John. Abaixo a Ansiedade. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.

FULLER, Daniel. A Unidade da Bíblia: O Desenvolvimento do Plano de Deus para a Humanidade. São Paulo: Shedd Publicações, 2014.p.249

FRANCES, Allen. Voltando ao Normal. São Paulo: Versal.2017. p. 96

CURY, Augusto. Ansiedade: Como Enfrentar o Mal do Século. São Paulo: Editora Saraiva, 2013.p.82

FREEMAN, Jason. Ansiedade: O que é, Os principais Transtornos e Como Tratar. L&PM EDITORES, 2015.p.32


[1] Pastor da Igreja Cristã Evangélica em Bequimão, graduado em teologia pelo Seminário Cristão Evangélico do Norte, e pós-graduado em Aconselhamento Bíblico pela mesma instituição. Email: lindomoreirasillva@gmail.com

[2] Piper, John. Graça Futura. Shedd Publicações, 2009. p. 63

[3] Macarthur Jr. John. Abaixo a Ansiedade. Editora Cultura Cristã, 2013. p.62

[4] Gênesis 3.

[5] Salmo 19.1

[6] Salmo 8.9

[7] RYLE, J. C. [Os Deveres dos Pais – 09] “Treine-os ao hábito da fé”. http://www.mulherespiedosas.com.br/os-deveres-dos-pais-09/ acesso em 27 de Julho de 2020

[8] Hebreus 3.12

[9] FRANCES, Allen. Voltando ao Normal. São Paulo: Versal.2017. p. 96

[10] CURY, Augusto. Ansiedade: Como Enfrentar o Mal do Século. Editora Saraiva, 2013.p.82

[11] Filipenses 4.8

[12] FREEMAN, Jason. Ansiedade: O que é, Os principais Transtornos e Como Tratar. L&PM EDITORES, 2015.p.32

[13] Hebreus 11.6

[14] Marcos 1.15

[15] Romanos 10.17

[16] FULLER, Daniel. A Unidade da Bíblia: O Desenvolvimento do Plano de Deus para a Humanidade. São Paulo: Shedd Publicações, 2014.p.249

[17] Mateus 6.26

[18] Hebreus 13.6

[19] Salmo 32.8

[20] Salmo 34.19

[21] 2 Coríntios 12.9

[22] 2 Coríntios 4.16

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