1 – A IGREJA ESTÁ FECHANDO?

A Igreja em seu caráter universal se constitui de pessoas salvas e redimidas pelo nosso Senhor Jesus Cristo em todos os tempos. No momento, com limitações em reuniões nos templos (Igrejas locais), mas unidas e reunidas por toda a Terra em nome do Senhor. Deus, O Senhor da Igreja, é Onipresente e Onipotente, criador de tudo que há e não habita em templos feitos por mãos de homens (At 7.48).

Como reflexo da história da Igreja e do Cristianismo, a sinédoque[1] adotada para representar a Igreja como se fosse o local onde os fiéis se reúnem (templo, estrutura, lugar), trouxe benefícios em relação a identidade e referencial nas comunidades onde a Igreja local atua. Mas também, proporcionou distorções nas mentes das pessoas que desconhecem ou simplesmente ignoram as diferenças entre “Igreja” e “templo”. Devido a isso, alguns textos bíblicos relacionados a Igreja têm sido erroneamente usados nesse contexto em que a congregação nos templos se tornou limitada. Considerando a discussão sobre identidade e local onde a Igreja se reúne, vejamos algumas observações sobre determinados textos ligados a essa questão:

“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mateus 18.20)

É um texto comumente usado para justificar a presença de Cristo em uma reunião no templo ou em um lugar com o mínimo de participantes presentes. Quando olhamos para o contexto (o que vem antes e depois) constatamos que não se trata de quantidade congregacional, tão pouco de culto, mas de disciplina eclesiástica com quórum[2], critérios e autorização de Cristo para Igreja deliberar sobre um irmão em seu nome. A presença de Jesus não pode ser definida por local ou quantidade de pessoas presentes, os que ensinam e repetem isso, dão abertura para uma negação pragmática[3] da Onipresença do Senhor.

“Todos os dias, no templo e de casa em casa, não deixavam de ensinar e proclamar que Jesus é o Cristo.” (Atos 5.42)

Vejamos também a dinâmica da Igreja primitiva que seguia crescendo e se reunindo no templo e também nas casas. Por muitos anos, atribuiu-se a legitimidade de um culto e Igreja somente a reuniões no templo. Mas as Escrituras nos mostram a dinamicidade da Igreja em seus primórdios. Novamente uma limitação a um “lugar” é inadequada para ditar o comportamento da Igreja.

“Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o” (Hebreus 10.25)

Outra vez, há uma sinédoque relacionada a esse texto. O termo “congregação” com o passar dos anos foi atribuído aos templos como se representassem a unidade dos salvos. O texto em questão é uma crítica ao abandono da reunião (congregação) como Igreja (Salvos e redimidos por Cristo) e não se trata especificamente de templo ou lugar. Vejamos que o contexto, aborda basicamente a vivência de uma nova realidade e liberdade proporcionada por Cristo para adoração a Deus, incluindo a indispensável comunhão dos crentes. Pois, é inconcebível que um cristão decida ser Igreja levando uma vida solitária, isolada e independente.

Quando olhamos com cuidado as Escrituras, certamente entendemos as diferenças entre “Igreja” e “templo”, vemos a abrangência, dimensão e profundidade do que é a Igreja, chegando à conclusão que ela nunca fechou e jamais fechará. Os templos podem ser limitados, fechados, ou até mesmo destruídos como já foram em momentos ferrenhos de perseguição, mas a Igreja não.

A Igreja de Cristo está viva e em pleno funcionamento, quando possível nos templos e de forma ativa nos lares e na fé em Cristo que cada um de nós compartilhamos juntos. Nossas práticas, comunhão e responsabilidades continuam. Apesar de a adoração e congregação no templo serem biblicamente importantes é notório que de forma excelente e verídica deve-se também orar, ler a Bíblia, ser fiel, ter comunhão com os irmãos e cultuar ao Senhor onde estivermos. Portanto, mais do que nunca, exercitemos a nossa fé, por todos os meios possíveis nesse momento atípico para em momento oportuno voltarmos as reuniões regulares nos templos.

 

2 – A IGREJA PERDEU SUA FÉ?

A fé da Igreja tem sido colocada a prova de forma objetiva nesses dias difíceis. Algumas pessoas se arriscam e põe em risco os outros em nome de um fideísmo[4] insano e ostentação do sobrenatural. Crentes fiéis a Deus e a sua Palavra são chamados de covardes e incrédulos por serem prudentes e obedientes, tomando todos os cuidados para preservação da saúde de todos.

É inegável o fato da benção e proteção de Deus estarem atrelados a fé, pois sem ela é impossível agradá-lo (Hb 11:6), mas a fé tem sido vista por alguns como algo totalmente dissociado das Escrituras Sagradas. O que não podemos esquecer é: “[…] a fé vem pelo ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo.” (Romanos 10.17) e, além disso, nossas obras são expressões da nossa fé (Epístola de Tiago).

A Bíblia fala de fé, mas também de prudência, obediência, sabedoria, planejamento e racionalidade. Aparentemente não são virtudes sobrenaturais, mas biblicamente expressam uma fé sobrenatural. Quando a Igreja age por meio dessas virtudes demonstra fé nos resultados positivos e bênçãos que virão pela obediência à Palavra de Deus.

O reconhecimento à suficiência das Escrituras resulta em esperança, salvação, proteção e aproximação de Deus. É um delito muito grande pensar que virtudes tão bíblicas se resumem em covardia, medo ou falta de fé. Não podemos cair na armadilha de sermos conduzidos ao erro como fez satanás com Jesus, usando um texto bíblico isolado e fora de contexto para fazê-lo desobedecer a Deus (Lc 4:1-13). Afinal como é dito popularmente no meio teológico “um texto fora de contexto é apenas um pretexto para heresia” e consequentemente a negação da fé verdadeira em Cristo e sua Palavra.

 

3 – A IGREJA ESTÁ SENDO PERSEGUIDA?

Existem rumores de que a Igreja em nosso país está em perseguição nos moldes da Igreja primitiva, mas nossa realidade hoje não é de estrita perseguição como a que teve início no ano 34 d.C. conforme o relato de Atos 8.1-3, 9-1 ou o decreto de Nabucodonosor em Daniel cap. 3. Estarmos num clima bem similar, a saber, nos reunindo nos lares e limitando as reuniões nos templos em resposta a decretos governamentais, porém, não somos caçados e obrigados a adorar outros deuses, muito menos a negar nossa fé sob pena de morte. Passamos por dificuldades, mas não há necessidade de enfrentarmos as autoridades com argumentos rasos e supersticiosos buscando ostentação da fé. A obediência às autoridades e a força aplicada por elas nesse momento não se trata de repressão espiritual ou religiosa, mas de garantia de ordem e da saúde pública. Conforme Romanos 13.1,2, devemos obediência às autoridades, com implicação de maldição caso isso não ocorra, pois, fé é também obediência à palavra de Deus. Nesse momento, a melhor forma de viver e demonstrar fé em meio às tribulações é através da observância da Palavra em todos os seus termos, é buscando o sentido completo do que Deus diz que seguimos crescendo e sendo abençoados assim como a Igreja primitiva nas dificuldades específicas de sua época e contexto.

 

4 – QUEM GOVERNA A IGREJA?

Em uma situação de alardes e desafios provocados pela pandemia surgiram discussões e confusões sobre religião e gerenciamento governamental. Em alguns religiósos exageradamente partidários, nasceu e reverberou um sentimento de esperança nas conclamações de líderes estatais.

Nesses momentos de tensão, naturalmente emergem esperanças vazias em corações desprovidos da plena confiança em Deus. Mas é necessário entendermos onde se apoia o governo da Igreja num cenário de equívocos. Pois, a Igreja não deveria banalizar suas práticas e depositar suas esperanças em figuras de autoridade estatal.

Num contexto de monarquia teocrática[5], como o vivido por Josafá em (2 Crônicas 20.3), ou de Igreja-estado da idade média, em que o líder religioso e estatal eram a mesma pessoa, obrigatoriamente a religião oficial da liderança deveria ser a do povo. Por vários motivos, não nos enquadramos nessa realidade e mesmo que possível, quando qualquer autoridade se opõe a Deus, impõe ou sugere a desobediência e idolatria, devemos nos posicionar em acato somente a Deus (Dn 3, At 5.29). Pela ordem, agimos como Igreja em obediência às autoridades, como manda a Bíblia (Rm 13.1,2), porque é nosso dever espiritual e cívico, mas somente até o ponto em que não há confusão entre adoração a Deus e a homens. Líderes governamentais civis que usando de sua posição tentem unir a Igreja ao estado, não devem ser considerados nesse sentido, pois tal posição é contra a própria lei civil e também Divina.

As condutas cristãs como o culto, oração e outras, não são instrumentos a serem conclamados e acionados como meros amuletos milagrosos ao bel-prazer dos homens, mas são aspectos práticos e espontâneos do relacionamento saudável com Deus, pois Ele não considera o culto, orações ou qualquer outra prática religiosa até que sejam em arrependimento (Pv 28.9, Is 1.15, At 2.38).

A Igreja é governada somente por Deus através do ensino verdadeiramente bíblico e cuidados dos ministros comissionados por Ele (Ef 4.11). O entendimento da natureza e conduta da Igreja vai muito além do governo civil dado por Deus aos homens, não há como confundir às duas coisas.


[1] Sinédoque – tipo especial de metonímia baseada na relação quantitativa entre o significado original da palavra us. e o conteúdo ou referente mentado; os casos mais comuns são: parte pelo todo: braços para a lavoura por ‘homens, trabalhadores’; gênero pela espécie ou vice-versa: a sociedade por ‘a alta sociedade’, a maldade do homem por ‘da espécie humana’; singular pelo plural ou vice-versa: é preciso pensar na criança por ‘nas crianças’

[2] Quórum – quantidade mínima obrigatória de membros presentes ou formalmente representados, para que uma assembleia possa deliberar e tomar decisões válidas.

[3] Pragmático – que contém considerações de ordem prática; prático, realista, objetivo.

[4] Fideísmo – doutrina teológica que, desprezando a razão, preconiza a existência de verdades absolutas fundamentadas na revelação e na fé.

[5] Teocracia – sistema de governo em que o poder político se encontra fundamentado no poder religioso, pela encarnação da divindade no governante, como no Egito dos faraós, ou por sua escolha direta, como nas monarquias absolutas


Referências

Oxford Languages, [s.l.: s.n.], […]. Disponível em:<https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/>. Acesso em: 05 abri. 2021.

Fabricio Rodrigues

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